Médico em Casa

Tratamento para COVID-19

Entrevista com a médica Infectologista

Dra. Daniela Bergamasco
CRM/SP: 111.575

 

– Infectologista do HCor.
 
– Graduada, mestre e doutoranda pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
 

 

Silmara Biazoto

 

Portal Médico em Casa – Dra. Daniela, obrigada pela entrevista. Sabemos que a área médica e da saúde tiveram que aprender a cuidar dos pacientes com COVID-19 por meio da observação de caso em larga escala e de algumas diretrizes que foram saindo com o passar das semanas durante a pandemia. Qual a atitude correta ao receber o paciente com suspeita de COVID-19?

 Dra. Daniela Bergamasco – Quando recebemos o paciente de COVID-19 vamos avaliar a idade, se tem alguma doença crônica que possa fazer com que ele tenha alguma chance de evoluir para formas graves da doença, como as crônicas cardiovasculares, diabetes e doenças que causam imunossupressão. Além disso, vamos avaliar o tempo de sintomas do paciente porque a evolução da doença ocorre em fases. Na inicial, os sintomas são mais leves, com o passar dos dias pode se estabelecer a pneumonia, que é mais grave nesses grupos de risco.
 
Existe uma gradação dos sintomas da COVID-19, tem aqueles pacientes que são assintomáticos, que fazem o exame por terem contato com paciente com diagnóstico confirmado; pacientes com as formas leves, que apresentam febre, coriza, perda de paladar e olfato; existem pacientes que podem apresentar formas moderadas, graves e críticas da doença, que requerem suporte hospitalar.
 

Portal Médico em Casa – Como é o tratamento depois de diagnosticado que o paciente está com COVID-19 leve?

 Dra. Daniela Bergamasco –Na forma leve, com diagnóstico no início, em geral a conduta é dar orientações e suporte que abrange hidratação, repouso e isolamento domiciliar. Só que muitas vezes a observação tem que ser mais intensiva. Se for um paciente que está no grupo de risco, a monitoração deve ser mais importante, preferencialmente esse paciente deve fazer a monitoração da oximetria em casa.
 

Portal Médico em Casa – Como fazer essa medição da oximetria em casa?

 Dra. Daniela Bergamasco –Trata-se de um aparelhinho simples que só de colocar no dedo, o paciente consegue medir a frequência cardíaca e a saturação de oxigênio. Em geral, ela é normal acima de 95%, quando cai é um sinal de alerta.
Esse diagnóstico é importante em um paciente que se encontra nas fases iniciais da COVID-19, mas que pode progredir para as formas graves.
 
No começo da fase pulmonar em que se instala a pneumonia, podemos ter o que chamamos de hipoxemia silenciosa, uma baixa da oxigenação do sangue, sem desconforto respiratório e sem falta de ar.
 
Nessa fase não existe uma recomendação de tratamento específico validado pelos estudos científicos.
 
Tem vários fármacos com possível efeito antiviral sendo estudados, além de fármacos imunomoduladores. Porém, nos estágios iniciais, leves, em pacientes sem necessidade de hospitalização e sem pneumonia instalada, ainda não há medicamentos validados por grandes estudos.

 

Portal Médico em Casa – A OMS acaba de dar uma diretriz de que se deve usar o corticoide, mas não nessa fase leve. É importante que isso fique claro?

 Dra. Daniela Bergamasco – É, isso que você está colocando Silmara é muito importante. Recentemente, tivemos a publicação do estudo “Recovery”, que usou um corticoide chamado dexametasona 6 ml para pacientes hospitalizados que precisaram do oxigênio. São pacientes em fases um pouco mais avançadas da COVID-19, em geral, com uma pneumonia instalada que leva a uma alteração inflamatória do pulmão e da troca gasosa pulmonar.
 
Agora acaba de ser publicado outro estudo no periódico científico Journal of the American Medical Association (JAMA), que indica usos maiores de dexametasona para pacientes mais graves que precisam de intubação, ventilação mecânica e que desenvolveram a síndrome do desconforto respiratório agudo. Mas é isso,não temos evidências de benefício do corticoide sendo utilizado desde o início da doença. Nós não sabemos como pode ser o uso do corticoide naquela fase muito inicial da replicação viral, é possível que seja até deletério, eventualmente podendo propiciar uma maior replicação viral e uma inflamação pulmonar pior mais tardiamente.
 

Portal Médico em Casa – A fase moderada requer exames como o D-Dimero ou outros remédios como anticoagulantes?

 Dra. Daniela Bergamasco – O D-Dimero pode ser também um marcador auxiliar na triagem dos fenômenos tromboembólicos, mas esses fenômenos acontecem em formas mais graves e o fator de risco para essa ocorrência não é só a COVID-19. A COVID-19 predispõe a isso, mas somam-se outros fatores que aumentam os riscos tromboembólicos em pacientes hospitalizados, o paciente está mais grave, acamado e com menor mobilidade.
 
  Nas fases iniciais, o hemograma está um pouco mais baixo, então, vemos leocopenia. Pode haver um aumento das enzimas do fígado, TGO E TGP. Num subgrupo de pacientes, nós podemos ver uma linfopenia, que é uma queda no número de linfócitos, um subtipo de glóbulos brancos. Nos pacientes na fase mais grave e inflamatória há um aumento da PCR, que é um marcador inflamatório no sangue.

 

Portal Médico em Casa – Dra, eu gostaria de retomar os anticoagulantes. É importante entrar com esse tipo de medicamento no paciente hospitalizado?

 Dra. Daniela Bergamasco –Tem uma diretriz brasileira sobre o manejo da anticoagulação para pacientes com COVID-19 que precisam ser hospitalizados, mas de novo, não é para todos. Particularmente, para pacientes com formas leves e que não requerem medida adicional e que não fazem parte do grupo de risco, tem diretrizes como do NAH, por exemplo, que não recomendam nenhuma medida farmacológica para formas leves e que não tenham nenhum fator para progressão para a forma grave. Então, a anticoagulação tem sim um papel, mas nas formas que requerem hospitalização.
 

Portal Médico em Casa – Como é a condução do tratamento do paciente que vai para a terceira fase, ou seja, a COVID- 19 na forma grave?

 Dra. Daniela Bergamasco – Para os pacientes com formas moderadas e graves, em paralelo a essas medidas farmacológicas, ainda sendo estudadas e com recomendações mudando à luz de novos estudos, existe toda a terapia de suporte, muito baseada na oxigenoterapia, indicada para todos os pacientes que têm uma hipoxemia cuja saturação cai para abaixo de 94%, de forma geral.
O paciente mais agudo é aquele que precisa de choque séptico, da intubação orotraqueal e deve ser visto por um prisma geral na terapia intensiva.
 
 

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