Médico em Casa

A Crise da Meia-Idade

Entrevista com a psicanalista
Dra Dorothee Rüdger
RNE: V031167Q

Silmara Biazoto

Como a mulher e o homem podem identificar que estão passando pela crise da meia-idade?

Do ponto de vista da psicanálise, nós estamos em crise o tempo todo, desde que nascemos, e por quê? Segundo Sigmund Freud, que escreveu em 1930 uma obra chamada “O mal-estar na civilização”, nós estamos sempre em crise com a civilização, nós nunca estamos à vontade e, portanto, as crises começam quando nascemos.

Existem fases na vida em que há problemas para se elaborar, para se trabalhar. A crise da meia-idade surge mais ou menos aos 45 anos, ocorre pelas transformações do nosso corpo, tanto para mulheres como para homens, somadas com transformações na vida profissional. Quando a pessoa tem muita experiência e, por exemplo, chegam novos colegas no mercado de trabalho trazendo novas ideias da faculdade, a pessoa se sente insegura porque aquilo que ela achava que fosse certo, já não é mais. Então têm as transformações no corpo e na vida.

 

Essa crise se agrava porque a sociedade está voltada essencialmente para valores como beleza e dinheiro?

E juventude, né!

Sim, a nossa sociedade está voltada para isso, mas não podemos responsabilizar só a sociedade, não é isso não.

Qualquer civilização faz com que não nos sintamos à vontade. Mesmo se a sociedade muda e tem outros valores, ela vai nos incomodar. O jeito é tirar o melhor dessa situação.

Nessa obra, Freud conta, como nós, seres humanos, podemos tentar fugir dessas crises de mal-estar da civilização quando diz que têm pessoas que se drogam, vão para o campo ou fogem para o amor romântico.

São muitas as maneiras de não querer saber de um problema. Só que Freud vai dizer o que podemos fazer de criativo com essa situação. Como cada um se reinventa nas mais diversas fases críticas da vida, essa seria a saída segundo Freud e para a psicanálise.

A questão das fases da vida e faixas etárias colocadas antigamente como infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice não são mais estanques e absolutas, são relativas. A Organização das Nações Unidas (ONU) mudou em 2018 o conceito e diz que somos jovens até os 65 anos, entramos na maturidade até os 80 anos e somos velhos depois disso.

 

Podemos dizer que as principais crises do ser humano ocorrem na adolescência e meia-idade?

Se você soubesse o que ocorre na infância (risos). A criança entra em crise por causa de separações da mãe, o adolescente por se separar da família e buscar outras parcerias. Aos 45, 50 ou 60 anos, os filhos crescem e vão embora e chegam os netos. Todas são separações que requerem elaboração, análise e criatividade para reinventar a vida. Nós somos convidados como seres civilizados a tirar proveito e as mudanças para a psicanálise não são negativas, são um convite para criar outra coisa.

 

Ou seja, o ser humano tem que se reinventar?

O mais importante é não entrar no estereótipo de que “agora estou no chinelo”, “vou fazer tricô e crochê”, ou “agora vou me sentar na minha cadeira de vovozinha e não vou mais me mexer”.

Outro dia, encontrei um casal de 80 anos na academia fazendo musculação. O ser humano tem a chance de se reinventar, ele pode se reinventar ou ficar reclamando, a escolha é dele (risos).

 

Às vezes a crise da meia-idade impacta muito a família. Como a pessoa pode lidar com isso?

Elas precisam se tratar e não é somente um psiquiatra e psicanalista que podem ajudar. Elas sofrem muito por essas mudanças físicas, familiares, etc. É bom procurar ajuda. É fundamental que a pessoa queira e coloque em questão como ela reage em relação às mudanças. Temos com o Dr Jorge Forbes, o Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA) e um projeto no Instituto do Genoma USP, nos quais fazemos um trabalho com pacientes que chamamos de pasta de queixas,  chama-se “Desautorizando o Sofrimento”.

As pessoas sofrem e, se colocando em questão, podem encontrar uma maneira criativa de sair desse momento, sem se queixar e não desenvolver alguma patologia.

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