Médico em Casa

Aparelho

Entrevista com a Cirurgiã-Dentista
Dra. Ludmila Rosa

CRO/SP: 61.170

– Formada em Odontologia pela Universidade Federal Fluminense  (FOUFF-NF/RJ).

– Especialista em Odontopediatria Universidade de Santo Amaro – (UNISA – SP).

– Membro da Associação Brasileira de Odontopediatria.

 

 

Silmara Biazoto

 

Portal Médico em Casa – Qual a diferença da Ortopedia Funcional de Maxilares para a ortodontia?

Dra. Ludmila Rosa – A ortopedia é uma especialidade da Odontologia, na verdade uma especialidade recente, antigamente estava englobada pela ortodontia.

É praticada no Brasil desde a década de 60 e regulamentada como especialidade pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) em 2003.

O profissional saía com o diploma de cirurgião dentista e fazia a especialização como ortodontista. Então, o dentista que fazia ortodontia trabalhava com essa área e também com a ortopedia, porém há alguns anos as áreas foram divididas por envolverem técnicas diferentes.

A ortopedia não necessariamente trata da correção dentária, ela cuida do crescimento ósseo da criança, então, muitas vezes se percebe que a criança tem os dentes tortos ou mal posicionados por uma questão óssea.

A Ortopedia Funcional dos Maxilares trata as causas da má-oclusão.

É uma especialidade da Odontologia que corrige desequilíbrios ósseos, musculares e funcionamento/relação maxila-mandíbula.

Quando se fala em criança, ela está crescendo, então, existe a força natural do crescimento e a ortopedia aproveita justamente essa força, direcionando-a. Portanto, pode-se dizer que a ortopedia não trabalha com forças externas.

A Ortopedia Funcional das Maxilares usa quatro forças naturais: a do crescimento e desenvolvimento; a da erupção dos dentes; a da postura e movimentos da língua e por fim, a da postura e movimentos da mandíbula.

Como o dente funciona? Ele está numa posição, o aparelho vai encostar nele, e o que o dente entende? Nada tem que encostar em mim, ele se movimenta e assim sucessivamente até ir para a posição correta. Por isso, se fala que não é força, mas orientações do que se quer.

O que é legal é que o dente vai e depois o corpo o acompanha, portanto a chance de recidiva é menor.

Nós sempre orientamos as mães de que não vamos corrigir o dente torto das crianças. Esse não é o objetivo principal, mas algo que está na sequência.

Às vezes eu brinco que é um bônus! Nesse caso, a ideia é arrumar a parte óssea, pois girar um dente é muito fácil.

 

Portal Médico em Casa – A idade do paciente e o tipo de aparelho são aspectos que dividem as duas formas de tratamento?

Dra. Ludmila Rosa – Na verdade, para todos os casos se tem as duas opções de tratamento, ou seja, se pode usar a ortodontia ou a ortopedia.

O que divide é o perfil da criança, o perfil da família e até o perfil do profissional e da técnica que ele gosta de usar, mas a ortopedia está mais relacionada à fase de crescimento.

A chance de recidiva é menor porque não se está adicionando força. Pode-se dizer que a ortopedia é uma força natural e a ortodontia, uma força mecânica.

 

Portal Médico em Casa – Qual a idade ideal para se procurar por tratamento?

Dra. Ludmila Rosa – Costuma-se dizer o seguinte: “Quanto mais novo, melhor o resultado” por dois motivos:

  • O primeiro porque tem todo o crescimento borbulhando, então, há uma força maior. Por exemplo, nas meninas, quando chega a menstruação, esse crescimento já é menor, o crescimento ósseo é menor, a resposta é menor e o resultado é mais lento;
  • O segundo fator e eu percebo muito no dia a dia do consultório é a cooperação da criança, dependendo da idade, como a ortopedia na maioria dos casos está ligada a aparelhos móveis e volumosos, a criança não quer utilizá-lo o tempo todo.

Tem que ter a colaboração da criança e da família, quanto mais horas na boca, melhor o resultado. Se o caso for de uma criança numa idade um pouco mais pré-adolescente, ela começa a não querer usar o aparelho, porque reclama que incomoda para falar, já para a criança é mais fácil.

Há profissionais que dizem que o momento ideal para usar o aparelho é depois da formação dos dentes permanentes da frente.

Nesse sentido, a troca dentária é muito mais para o pai e a mãe visualizarem o problema do que para o dentista.

Pelos exames, estudos e medidas, nós profissionais sabemos que a conta não vai fechar.

Na verdade, há casos que se percebe que está chegando o momento da troca dentária e que não há espaço, por isso é um tratamento preventivo – cuida-se antes dos pais verem o problema.

 

Portal Médico em Casa -Quais os desequilíbrios que a Ortopedia Funcional dos Maxilares resolve?

Dra. Ludmila Rosa – Na criança ocorre muito a mordida aberta por uso excessivo de chupeta,  também pelo hábito de sugar o dedo e  uso de mamadeira. Então, há crianças que têm esse hábito e é uma questão cultural, percebe-se isso no dia a dia, que com o uso prolongado, a mordida fica aberta, que é muito comum de se perceber em crianças pequenas.

No entanto, ela é fácil de resolver quando a intervenção é precoce. São aparelhos muito tranquilos, mas que precisam ser usados com frequência.  Nenhum aparelho da ortopedia funciona se for usado só para dormir, se for usado apenas por poucas horas.

Outro tratamento é o da mordida cruzada, normalmente ocasionado por uma maxila atrésica, que é mais estreita.

Nesse caso o que acontece é que o dente inferior se posiciona trocado no superior, então se tem a mordida cruzada anterior, aquele em que o paciente tem um queixo pra frente.

Ela pode ser uma questão de posicionamento dentário ou uma tendência de crescimento maior da mandíbula. Nesses casos, é preciso iniciar rapidamente o tratamento com uso de aparelho, porque há uma mandíbula com avanço e se ela tem um potencial de crescimento maior, geneticamente falando, não tem freio. Por isso, a criança precisa de um aparelho para segurar o movimento.

O outro tratamento é o para a mordida profunda com os dentes superiores cobrindo boa parte dos inferiores, com a boca aparentemente perfeita esteticamente, mas que tem a mordida profunda e só vai conseguir fazer o movimento de charneira, a abertura e o fechamento da boca. O paciente não consegue fazer a lateralidade, o esfregaço do alimento, não estimula a questão muscular e óssea.

No futuro, crianças com mordidas muito profundas, começam a ter problemas de ATM, pois se trata de uma boca travada. E por que hoje isso acontece muito com as crianças? Porque elas não se alimentam corretamente, quando nós éramos criança, chupávamos laranja, manga, comíamos o pão dormido, tínhamos uma alimentação mais fibrosa e as crianças hoje não têm.

É uma questão cultural, hoje elas comem tudo muito pastoso, fibroso, fácil. Costumamos sempre pedir para as crianças se alimentarem bem, não só no sentido nutricional. É necessário um exercício, a alimentação precisa ser fibrosa, pois assim ela vai aprender a mastigar e com essa mastigação vai fazer todo esse desenvolvimento.

As pessoas não conseguem perceber isso. O céu da boca é o teto do nariz, quando há uma maxila estreita, a via aérea superior é muito estreita. A criança tem dificuldade de respirar.Tem alguns aparelhos que visam pegar o céu da boca da criança e ajustar essa posição para melhorar a capacidade respiratória.

Quando a criança tem o queixo para frente, a coluna, o rosto e todo o corpo estão envolvidos, é um alinhamento total, por isso que se chama ortopedia, se trata a boca, mas tem uma questão do conjunto. O mesmo quando o queixo está posicionado para trás.

O odontopediatra acompanha a criança desde pequena e tem a visão do crescimento e a troca dos dentes, avalia se estão ocorrendo em bons momentos, pede uma radiografia e vai acompanhando.

Colocar o aparelho é uma questão familiar, a criança tem que colaborar usando o aparelho e às vezes o momento para o dentista não é o da família. Nesse caso, precisam decidir quando vão iniciar o tratamento. Para o dentista o melhor momento é aquele que se detecta o problema.

 

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