Médico em Casa

Prevenção de Doenças

Bons hábitos & Check-up

Jovens precisam de estabilidade: do celular ao suicídio

Entrevista com o Pediatra e Livre-docente da FSP/USP
Dr. Paulo Rogério Gallo
CRM/SP:346.27

Silmara Biazoto

Colaboração de Luciano Maluly
Livre-docente da ECA/USP

Algumas escolas e grupos de pais têm estudado a possibilidade de restringir os celulares durante o período escolar. Na opinião deles, os aparelhos estão sendo usados para joguinhos da moda, redes sociais e produção de vídeos, afastando crianças e jovens do convívio social, que é especialmente importante na idade escolar. Diante dessa questão de saúde pública, qual sua visão sobre o assunto?

É um assunto extremamente complexo, mas o celular não pode ser visto como um elemento de exclusão, ele pode e deve ser visto como um instumento de integração. É óbvio que você também tem o mau uso do celular. Na prática, o aparelho integra muito mais que exclui. Eu diria que o convívio social hoje é mediado pelas mídias de comunicação.

É perfeitamente verificável que o celular é usado como elemento de aproximação e não afastamento de pessoas.

Hoje o aluno está ligado e ao mesmo tempo confrontando o conhecimento que o professor transmite, ou seja, está checando se aquela informação tem veracidade, se tem foro de realidade em relação ao dia a dia dele. O celular é um catalisador entre uma realidade que ele vivencia e o conhecimento que o professor está tentando passar.

É muito comum o professor ficar desesperado nesse contexto de confrontação, mas é a realidade contemporânea. O dr. Google está presente no dia a dia,  na consulta médica, no orçamento da batida do seu carro ou na escola – quando você vai aprender algo sobre determinado contexto ou conteúdo.

A maior preocupação é a falta de interação social nos intervalos escolares?

Estamos falando de uma criança que está brincando com o celular. Nós tivemos essa mesma dúvida com os jogos eletrônicos alguns anos atrás.

As crianças ficavam de frente para o vídeo e não conviviam mais entre si e a realidade se mostrou diferente dessa, temos crianças compartilhando com outras, jogos e troca de experiência sobre jogar . A realidade do jogo passou a ser a temática que une no convívio social e o mesmo acontece com o celular.

A possibilidade de você ter uma realidade expandida sobre milhões de informações faz com que a criança procure trocar essa experiência. Aqueles que são tímidos provavelmente vão continuar sendo tímidos, mas não é o celular que aumenta a timidez, ele é usado como elemento de aproximação.

Temos que perceber a potencialidade e trabalhar positivamente com ele.

Sobre o uso do celular antes de dormir: algumas pesquisas alertam que o aparelho interfere na qualidade do sono, assim como outros eletrônicos como a televisão, mas mesmo com esse alerta, cada um define quanto e quando vai usar o celular.

Como a tecnologia pode ser usada pelos jovens?

Bem lembrado. O tempo de um brasileiro em frente à TV no Brasil é o maior do mundo. Se tem um elemento menos integrador socialmente que a TV, eu não conheço. A criança senta e fica em média 8 horas por dia, ou seja, o aparelho a acompanha do café da manhã até a hora de dormir, enfim a TV é mais que um membro da família. Quando falta energia as pessoas ficam desorientadas ficam desorientadas, ou seja, a TV representa um mau uso que ainda não conseguimos resolver.

Os jovens estão perdendo qualidade de vida? A saúde pública tem diretrizes para mudar esse cenário?

É óbvio que por uma questão de fisiologia, ficar no celular antes de dormir não desliga o teu cérebro, mas como resolver isso? É uma questão de acordo tácito na família. Isso é o contrário de mandar e sim compartilhar uma angústia sobre o uso do celular na hora de dormir. Esses são acordos feitos tacitamente e não imposições.

O suicídio é a quarta causa de morte entre jovens no país, segundo o Ministério da Saúde. O filme “Ferrugem”, ganhador do Festival de Gramado, trata desse assunto. Como lidar com  essa questão no momento?

Talvez essa seja uma questão que vai além da nossa capacidade de compreender o fenômeno suicídio. Em 1977, Emile Durkheim publicou o primeiro livro sobre suicídio, em que afirma “Suicídio nunca é uma ação individual”. Na realidade, as causas do suicídio tem que ser pensadas na sociedade como um todo.O que precisamos é que jovens se integrem socialmente, esse é o grande desafio. Que tenhamos amigos e familiares que sejam colocados  e incluídos dentro do processo social, acho que essa é a questão.Se um jovem está marginalizado ou excluído por um monte de inseguranças entre os 15 e 19 anos – ressaltando que temos insegurança a vida toda – mas nessa idade acontece a explosão da sexualidade, de todas essas dúvidas,  será que serei competente sexualmente ou não? Sou capaz de arrumar um namorado ou namorada? Será que sou capaz de ter a minha prática sexual normal? Afinal de contas meus peitos estão crescendo, os meus pêlos estão crescendo, eu estou cheio de espinhas, cheio de dúvidas e me olho no espelho todos os dias e não me vejo como ontem, ou seja, minha noção de tempo, espaço e identidade está mudando muito.

Se eu não tenho no espaço familiar e no espaço dos meus amigos, momentos de troca e de interatividade para tirar essas minhas dúvidas,  vou me isolar. O isolamento faz com que os jovens olhem o restante como alienígenas.

Ele não se reconhece porque as pessoas que estão naquela festa têm suas características, que são diferentes, então é fácil viver excluído e justificar a exclusão. Esse é um processo que precisa ser desarmado e que leva o jovem ao isolamento e a justificar essa atitude. Ao fazer isso, justifica-se a saída do convívio e o suicídio.

O jovem que está numa idade de 15 a 19 anos precisa de algumas  estruturas que ele acredite que amanhã vai encontrar igual. Você tem um contexto social totalmente desfavorável à idéia de tradição ou de âncora, em que se possa amarrar uma verdade que seja válida pelo menos durante a adolescência.

Precisamos de alguma coisa que seja mais estável, o incêndio do Museu Nacional é um exemplo disso, quero dizer: o quanto todos nós sofremos em perder algumas coisas que poderiam ser para nós uma referência, como precisamos disso. Todo dia o jovem vive um incêndio, todo dia o jovem que sai de manhã e volta à noite viveu um incêndio, vários valores dele foram incendiados, liquidificados e saíram de suas mãos, sem ele de fato poder se segurar neles.

Deixe uma resposta

Fechar Menu