Médico em Casa

Como envelhecer bem

Entrevista com a geriatra e clínica geral
Dra. Jullyana Toledo
CRM/SP: 130.104

Silmara Biazoto

Com qual idade uma pessoa deve começar a se preparar para a velhice?

Eu acho que nos preparamos para a velhice nossa vida inteira, mas tem uma década de vida que é especial, uma década em que começamos a nos preocupar mais com como vai ser a partir dos 80 anos. Então, entre os 50 e 60 anos é quando a pessoa se preocupa mais em como vai ser lá para frente, e isso tem muito a ver com a saúde dos músculos e dos ossos. 

Nesta década entre os 50 e 60 anos começa um declínio, começamos a perder massa muscular e se não tivermos um cuidado extra com alimentação, atividade física e repouso, acentuamos essa perda. Vou chegar muito pior lá na frente e provavelmente com alguma incapacidade, usando bengala ou com dificuldade de manter o equilíbrio. 

É fácil entender que para estar dentro de casa, cozinhar e cuidar das coisas, tenho que me locomover bem, preciso levantar da cadeira, ter equilíbrio e ficar dentro de casa de uma maneira independente.

 

Manter-se independente passa por aspectos como locomoção, visão, audição e raciocínio. Qual sua indicação para cada item?

  Basicamente tem alguns pilares que são as áreas da nossa vida que temos que nos atentar para ter uma vida mais saudável. São elas:

  •  Atividade física

O sedentarismo acentua a perda de massa muscular, isso sem falar de todos os benefícios cardiovasculares e metabólicos, falando somente do sistema musculoesquelético.

  •  Dieta

São necessários nutrientes para manter a massa muscular, assim como os sais do sangue para a reparação dos órgãos ao longo da vida. É claro que o pediatra passa isso para a mãe, mas nos perdemos ao longo da vida e vamos retomar isso somente com o geriatra. Então, dieta é importante e em cada fase da vida vai determinar um manejo diferente.

  • Dormir bem

 É importante para reparar o organismo, manter a saúde de todos os órgãos e o sistema de saúde central que tem um impacto no humor e cognição.   Uma parte de ser independente, ter autonomia e conseguir decidir o que se quer para sua vida, quem proporciona isso é a cognição, mas se o paciente tem um corpo muito judiado, será depende de alguém por conta da parte física.

Se eu recebo um paciente aos 40 anos, vou me preocupar com isso, aos 50 também e aos 60 mais ainda. Em todas as consultas vou orientar os pacientes sobre dieta e atividade física pensando nos benefícios não só cardiovasculares, de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou infarto, mas para a saúde ortomuscular porque eu quero um paciente com 80 anos surfando, pulando de paraquedas, enfim, fazendo o que ele quiser.  

 

Palavras cruzadas, Sudoku e baralho ajudam?

 Ajudam desde que o estímulo seja variado, não adianta ficar sempre no nível 1, o que vai ajudar a estimular o cérebro é o desafio. Não adianta ficar na prática de um esporte que é um estímulo cognitivo, mas só no “basiquinho”, tenho que ir me desafiando. 

  Eu acho que baralho ajuda muito porque além de eu conhecer a regra do jogo, tenho que conhecer as cartas e raciocinar como vou ganhar aquela partida. Tenho a interação com outras pessoas, que acho o estímulo mais potente que temos porque tem a empatia e a troca de experiências.

Aquele idoso que fica sozinho e só na televisão vai ter um desenvolvimento cognitivo pior, não tem estímulo nenhum.

Estimulam-se melhor as pessoas com atividades variadas, então, por exemplo, se ela tem um trabalho muito intelectual, se puder fazer uma atividade manual como artesanato, vai estimular uma outra parte do cérebro que não é aquela que estou estimulando todos os dias e esses estímulos variados me fazem manter a cognição, então, ir a um concerto de música e ao teatro, tudo isso faz parte desse estímulo.

 

Ter independência para cuidar da conta bancária também faz parte da velhice saudável? 

É uma atividade complexa cuidar das finanças, tem que entender o banco e o site,  o que o gerente está propondo e isso implica em saber como está a economia do país, então, envolve a cognição intacta e, além disso, é preciso se locomover até o banco.

São sempre as partes cognitiva e física juntas que vão me permitir fazer todas essas atividades instrumentais.    

 

Quais são os hábitos alimentares que resultam positivamente na velhice?

 Hoje existem várias “dietinhas da moda”, mas eu acredito no equilíbrio. Se formos fazer um retrospecto de todas as dietas que saem para hipertensão, diabetes, etc.,  a mediterrânea contempla a maior parte para proporcionar um envelhecimento saudável.

 Trata-se de:

  • Comer carnes magras e peixe;
  • Comer óleos por meio das castanhas oleaginosas;
  • Comer bastante verduras e legumes.

Ao longo do envelhecimento a necessidade de comer proteína e cálcio aumenta em relação ao jovem, por isso é necessário fazer um acompanhamento.   

 

Na terceira idade é necessário fazer uma reposição de cálcio?

O idoso acima de 60 anos precisa de mil miligramas de cálcio por dia. O que isso significa? Um copo de leite normal tem mais ou menos 200 miligramas de cálcio e pode-se complementar, por exemplo, com yogurt enriquecido com cálcio.

O próprio organismo vai absorver na medida que cada um precisa. 

  Existem suplementos para quando a pessoa tem uma doença como a intolerância à lactose, mas na literatura atual, a recomendação é que se consiga pela dieta, o que  é recomendado como mais saudável.

  O ideal do mundo é conseguir fazer a reposição pela dieta porque não se consegue saber quanto o organismo vai absorver do medicamento.       

 

Exames de sangue e imagens detectam as doenças na fase inicial, portanto mais fáceis de serem tratadas. Acima de 60 anos os exames devem ser anuais?

  Os exames devem ser anuais, mas um pouquinho antes dos 60 anos. O check up anual começa em torno dos 45 anos para a deteção precoce das doenças. Diabetes e hipertensão são bastante prevalentes na população. 

A partir dos 60 anos se tornam mais prevalentes outras doenças, mas não é só isso, mudam também as recomendações de vacina evitando várias doenças.   

 

Ter contato com amigos e familiares é importante para todos independente da idade, mas para o idoso qual seria o grau de importância? 

  É importantíssimo. Diria que é uma das coisas que vai ter maior impacto na cognição, um estímulo que não tem outro igual, não tem nenhuma terapeuta que vai conseguir um estímulo tão importante quanto  um círculo de amigos e uma família que te suporta, te apoia e de uma certa maneira vai depender de conselho, orientação, oferecendo ao idoso um senso de utilidade, uma função social. Tudo isso vai preservar humor e cognição do idoso de maneira que não tem remédio que faça o mesmo e acho que nunca vai ter.

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