Médico em Casa

Transtorno bipolar

Entrevista com o psiquiatra
Dr Martinus Theodorus Van De Bilt
CRM/SP: 61.794

Silmara Biazoto

O que é transtorno bipolar?

O transtorno bipolar é um problema em que o paciente alterna períodos de irritação e depressão com o bom humor, estas são as principais manifestações da doença. Parece um diagnóstico fácil, mas na verdade é muito mais complexo.

Na verdade, a irritabilidade mencionada é algo que vemos tanto nas fases depressivas quanto nas fases exuberantes, é um sintoma misto, outra gradação da doença.

O diagnóstico é tão complexo que tem vários estudos mostrando que os pacientes têm uma trajetória de até oito anos para que se feche o diagnóstico. Então, o diagnóstico hoje é basicamente evolutivo.

O grande viés para se dizer que um indivíduo tem transtorno bipolar é ter tido pelo menos uma fase de mania. Mania tem que ser entendida não como o leigo, como mania de limpeza ou coisa assim, mas estado de humor em exaltação.

Acontece que o paciente na fase de mania não procura o médico porque ele se sente bem, ele se sente muito bem e não percebe os riscos das decisões que vai tomar, então, isso retarda o diagnóstico, para grande prejuízo do paciente.

 

Quando o Sr. fala das decisões que vai tomar, que tipo de decisões ele pode tomar na fase da mania?

A fase da mania é caracterizada pela aceleração brutal do estado psíquico, vamos dizer assim. Ele fala muito e perde o freio. Todos nós, antes de falar, filtramos, o que nos impede de falar coisas que sejam ofensivas à outra pessoa. Ele perde esse freio e toma decisões baseadas em falsas premissas.

Eu tenho um bom exemplo aqui de uma paciente que, sem que pudesse fazer isso, numa manhã comprou um carro e um apartamento em duas horas e meia. Na fase da mania, o paciente toma esse tipo de decisão que pode ser complicada do ponto de vista financeiro.

O paciente costuma também ficar hipersexualizado e se aproxima de pessoas que de outra forma não se aproximaria e se coloca em situações que são potencialmente danosas à imagem.

A fase da mania não é divertida e pode custar muito caro, não só financeiramente, mas também para a sua imagem. A pessoa mede mal os riscos.

 

Essa fase da mania dura quanto tempo?

Isso depende um pouco da doença. Hoje em dia, com o maior conhecimento e o diagnóstico raro, se vê as pessoas não serem tratadas na mania e o tratamento encurtaria a fase.

Nos relatos antigos, em que não tinha muito o que se fazer, estão descritos muitos meses de mania em que a pessoa ficava acelerada.

 

Quando ela entra em depressão que procura por ajuda?

Via de regra, as pessoas procuram auxílio médico quando estão deprimidas.

As pessoas vão atribuir à depressão as coisas que vão acontecendo na vida e depressão não é isso. Depressão é um quadro de alguma gravidade ou muito grave com uma avaliação em leque que não há correlatos com o que está acontecendo na vida da pessoa.

 

As pessoas confundem depressão com transtorno bipolar?

Sim, eu diria que sim. Em primeiro lugar, porque as fases, e não necessariamente as fases de mania, são exuberantes. Às vezes são de hipomanias e outras os pacientes não fazem nenhum comentário. Então, é muito difícil separar o que é uma depressão unipolar e uma depressão bipolar. Essa confusão é uma constante.

 

O que acontece se tratar de forma errada?

Então, esse é um dos grandes problemas, porque se o paciente tratar da depressão bipolar como uma depressão unipolar, vai tomar antidepressivo e ocorre que isso leva à alteração do estado de ânimo e não de volta ao normal e sim à mania. Então, os manuais de tratamentos apontam como contraindicados, a não ser em casos muito extremos em que se tentou de tudo.

 

O paciente bipolar deve tomar moderador de humor?

Sim, ele deve tomar estabilizador de humor. Por definição, de primeira escolha são os estabilizadores de humor.

 

Quais são os níveis do transtorno bipolar?

Talvez há 25 ou 30 anos, o transtorno bipolar se resumia a psicose maníaco-depressiva que é a forma mais grave da doença. O próprio nome diz: transtorno bipolar com sintomas psicóticos, seja na fase da mania ou depressão.

Ao longo desses anos foi se falando cada vez mais dos aspectos do transtorno bipolar porque tem formas mais brandas e que são muito mais prevalentes.

A forma tipo 2 do transtorno bipolar é mais prevalente. É como se o humor oscilasse mais suave, então, o dano é um pouco menor. Ainda assim, há dano para a vida da pessoa.

 

Existem fatores que agravam os sintomas?

Existe uma comorbidade muito grande entre o transtorno bipolar e o uso de algumas substâncias:

  •  O paciente com transtorno bipolar, na fase da mania, buscar substâncias como o álcool ou outras drogas;
  • Os moderadores de apetite, que são anfetaminas, caracteristicamente uma porcentagem dos pacientes que fazia uso deles, ficava com a mania.
  • Os corticoides em doses absolutamente corriqueiras levam a um quadro de mania.

 

É diferente no homem e na mulher em função da variação hormonal?

Em relação a isso, acho que é importante salientar a questão do puerpério, que é aquela fase do momento em que a mulher acabou de ter um filho e vai até seis meses após o nascimento.

É uma fase de risco do ponto de vista de doenças afetivas pelas mulheres. Então, se tem a depressão puerperal ou a psicose puerperal, e muitas vezes, elas vão marcar o início do transtorno bipolar. Quando isso é frequente, é importante sinalizar isso para a família acompanhar porque é um dos marcadores da doença.

 

É mais comum as pessoas perceberem o transtorno bipolar a partir de que idade?

Essa é uma boa pergunta, porque antigamente, há uns 30 anos, os manuais diziam que a doença começava na década dos 30 anos de idade.

Ao longo dos últimos anos, isso tem mudado e é cada vez mais precoce do que se imaginava.

O que acho que confunde um pouco é que parte do comportamento da forma moderada, bipolar tipo 2, esse comportamento um pouco fora da norma, também acontece na adolescência. Então, socialmente tolerável na adolescência como experimentação dos seus limites. Talvez por isso se retarde um pouco o diagnóstico da doença nesta faixa etária e se leve até oito anos para fechar o diagnóstico.

 

Se não tratada adequadamente, quais podem ser consequências?

As consequências para o bipolar são perdas de várias formas:

  • O suicídio nos casos mais graves e, por isso,  exige vigilância porque é um problema muito sério;
  • Está sujeito a acidente por dirigir muito rápido ou atravessar a rua sem olhar;
  • Dificilmente consegue ter relações afetivas por muito tempo, quem está do lado não aguenta porque é muito variável;
  • Tem alto índice de absenteísmo no emprego, porque ou está deprimido e não consegue ir, ou está eufórico e não se interessa, ou tem comportamento disruptivo no ambiente de trabalho.

 

Como assim?

Como ele é facilmente irritável, não vai conseguir manejar conflitos habituais dentro do que é normatizado como razoável.

Eu me lembro de um paciente que foi para uma entrevista de emprego e fez uma última pergunta para a pessoa  que o estava entrevistando e disse: “Mas você é boa mesmo nisso que você faz? Porque se você não for, daqui a um ano eu estarei no seu lugar”. Evidentemente, esse paciente não foi considerado para a vaga. Esse tipo de dano existe.

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