Médico em Casa

Câncer de pulmão

Entrevista com o oncologista
Dr. Marcelo R. S. Cruz
CRM/SP: 100.470

Silmara Biazoto

Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha, 39% da população brasileira não se preocupa com a doença pulmonar porque não é fumante. Quais são os sintomas que indicam que o paciente deve procurar um médico?

Essa pesquisa é interessante porque focou um pouco mais em câncer de pulmão.

O tabagismo é o principal fator de risco para o câncer de pulmão e outras doenças do sistema respiratório.  Para se ter uma ideia, o câncer de pulmão esteve relacionado com o cigarro em 90% dos casos e 10% podiam ter câncer de pulmão sem ter relação com o cigarro. Porém, esse número de pessoas com câncer de pulmão sem ser tabagista está aumentando.

Nos últimos anos dobrou e foi para 20%. Então, os 39% que não se preocupam porque não fumam, precisam ser educados, porque têm outros fatores para se preocupar, não é só o cigarro.

Pessoas mais expostas ao câncer de pulmão:

  • Tabagista;
  • Fumante passivo;

Não precisa ser fumante para fumar, a pessoa pode conviver com outra que fuma ao longo de décadas e está fumando também.

  • Com exposição à poluição ambiental; 

Não é só a poluição ambiental das grandes cidades por conta de carros com a queima de combustível e a poluição das indústrias, mas a poluição ambiental como a queima de lenha, por exemplo. A pessoa que tem o fogão a lenha, na zona rural por décadas fica queimando aquela lenha e inalando aquela fumaça.

As minas que produzem o carvão apresentam poluição ambiental para quem está exposto à fuligem, à substância tóxica da fumaça e à queima da lenha. Considerando esses fatores de risco para câncer de pulmão.

  •  Com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC);

Ao longo dos anos, principalmente os tabagistas podem ter essa doença porque vão perdendo a função respiratória. Inalar a fumaça do cigarro estraga o pulmão, mas o paciente pode ter DPOC e não ser tabagista.

A doença pode estar relacionada a outros fatores ambientais e perda de função respiratória.

 

O Sr. falou em dobrar o número de pessoas com câncer de pulmão sem nunca ter fumado. A que se atribui isso?

Há dois grandes estudos internacionais que mostraram isso. Na década de 90, cerca de 90% eram tabagistas ou ex-tabagistas e 10% não tabagistas. Estes 10% agora dobraram, 20% de não tabagistas estão vindo para os grandes centros médicos com o diagnóstico de câncer de pulmão. Então, a poluição ambiental é um fator de risco que está sendo bastante estudado e mostra que tem relação.

Existe também o gás radônio, que é mais importante que a poluição ambiental. Em 2005, a Organização Mundial da Saúde já considerou o gás radônio o segundo fator de risco mais importante depois do cigarro para câncer de pulmão e o primeiro fator de risco entre aquelas pessoas que nunca fumaram.

Esse gás é encontrado naturalmente em algumas regiões, não é produzido por conta da poluição. Ele é um produto do decaimento de urânio e de tório, que são compostos presentes em alguns tipos de rochas. Em áreas que têm estas rochas no subsolo, ricas nestes compostos, elas vão soltando o gás, que vai saindo para a superfície.

Se a pessoa faz uma casinha em cima desta região, pode ter problemas ao longo de décadas.

Só para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, por exemplo, no estado de Iowa, já se sabe que as rochas deste estado são ricas em radônio e é proibido fazer mineração nestas regiões e levar uma rocha para construir uma casa.

A pessoa estaria levando um composto rico numa substância de alto risco e construindo uma casa que alguém vai conviver com essa liberação de gás ao longo da vida e vai ter problemas no futuro.

São fatores que estão aparecendo e sendo bem identificados para tentar prevenir o câncer de pulmão.

 

No Brasil, quais são as regiões que mais têm esse gás?

Não existe ainda esse rastreamento. Existem algumas áreas em que isso já foi feito. Existe um trabalho brilhante feito na região de Poços de Caldas, em Minas Gerais, e se sabe que ali é uma região rica em exposição ao radônio.

A maior mina de urânio, quando se extrai urânio para as usinas nucleares, é na região de Caetité, na Bahia. Em algumas outras regiões, há geólogos estudando o assunto.

Há alguns outros focos no litoral norte de São Paulo, algumas regiões no Rio de Janeiro, mas  não existe o mapa do radônio no Brasil. Temos algumas áreas onde isso foi pesquisado e se encontrou, em outras não, mas não temos uma pesquisa em todo o Brasil.

Vale lembrar que o Brasil é muito rico do ponto de vista mineral, então, esta informação seria importante.

O que nós estamos vendo na prática clínica é importante,  temos números como esses dados americanos, mas corroboram com os dados que estão aparecendo. O número de jovens ou pessoas que nunca fumaram, com diagnóstico de câncer de pulmão, está aumentando nos consultórios. Alguma coisa está acontecendo.

 

Depende de quem para fazer este mapeamento nacional?

Este mapeamento nacional dependeria do governo. É uma questão de saúde pública, então, dependeria de ter uma instituição governamental que cuidasse de Minas e Energia, Ministério da Saúde, para fazer esse levantamento. Infelizmente, no Brasil se gasta muito com tratar doenças e pouco com prevenir.

Se não conseguirmos ter os números populacionais de casuísticas das doenças, não vamos conseguir nem definir um programa de saúde pública.

E esse é um problema nacional, muito triste, que precisa ser vencido. Tenho tentado fazer a nossa parte com algumas organizações não governamentais, tentando entender o tamanho do problema. O ponto não é fazer um alarme, mas é entender o tamanho do problema para, a partir daí, ver onde precisa ser trabalhado para minimizar esses pontos no país.

 

Quais as doenças mais comuns respiratórias e pulmonares?

Em cidades com grande poluição, existem:

  • Rinites;
  • Sinusites;
  • Inflamações;

A pessoa fica muito tempo com coriza, secreção nasal, tosse seca que não melhora e que, muitas vezes, está relacionada com a poluição e com o período do ano, principalmente o inverno.

O inverno numa cidade poluída é um “desastre”, aumenta o número de crianças nos pronto-atendimentos. Crianças e idosos sofrem muito com doenças inflamatórias e infecciosas.

Quando partimos para doenças mais crônicas existem:

  • Bronquites;
  • Asmas;
  • Doenças inflamatórias mais graves;

Elas atacam o próprio pulmão, levando a complicações e que, se não tratar, podem piorar o padrão respiratório ao longo do tempo.

  • Tuberculose;

Essa é uma doença de terceiro mundo e o Brasil não conseguiu controlar. A tuberculose é um problema muito, muito grave no país.

Ainda temos as doenças mais raras:

  • Fibroses pulmonares;

Algumas vezes é genética, ou seja, a pessoa nasce com pré-disposição a ter um problema pulmonar grave e, algumas vezes, é por exposição a substâncias tóxicas.

Há uma fibrose importante e que se tem combatido no país, é a que aparece no paciente que trabalha na produção de telhas de amianto, que é um composto mineral. Ao longo de anos de exposição ao amianto, tanto os funcionários de fábricas como as famílias recebem o funcionário em casa com as roupas sujas com esta substância podem desenvolver fibroses pulmonares obstrutivas crônicas e até câncer.

 

Quais os tratamentos disponíveis para o tratamento do câncer de pulmão?

O câncer de pulmão não é uma doença só. Hoje se sabe que para ter o diagnóstico de câncer de pulmão, quando descobre a doença, tem que saber o tipo e o subtipo de câncer para definir o tratamento. Felizmente, nós temos várias opções de terapias.

O diagnóstico geralmente é tardio, descobre-se com a doença avançada em mais de 80% dos casos e muitas dessas pessoas vão precisar fazer quimioterapia para tratar o câncer de pulmão. Mas também, dependendo do subtipo do câncer de pulmão, temos terapias-alvo com comprimidos disponíveis no Brasil, que podem ter uma eficácia muito maior do que a da quimioterapia nos grupos com aquele tipo de câncer de pulmão, tem que ser identificado.

Outra coisa que está vindo e felizmente já foi aprovada no Brasil é a imunoterapia. Hoje, tratamos a maioria dos cânceres com quimioterapia que age direto na célula do câncer, tenta matar a célula do câncer.

A imunoterapia estimula a defesa do corpo, o sistema imunológico, a combater o câncer. Então, ela ensina as células de defesa a tirar a camuflagem que o câncer faz para crescer e atacar.

Esta é uma novidade importante que felizmente foi aprovada. Ela tem vindo com muita força na área de tratamento do câncer e esperamos que traga bastante benefícios para as pessoas.

Tudo isso é novo, tudo isso é importante, mas infelizmente nem todo mundo tem acesso a tudo que eu estou falando. No Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, tudo isso está longe de ser realidade. Essa é uma realidade para quem tem plano de saúde.

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