Médico em Casa

Doenças do intestino

Entrevista com o Cirurgião do Aparelho Digestivo e Coloproctologista
Dr. Antonio Rocco Imperiale
CRM: 82.345

Silmara Biazoto

Uma pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina  mostra que as doenças intestinais cresceram até 15 vezes nas últimas cinco décadas. A que se atribui esse aumento? Hábitos alimentares errados?

Aconteceu um aumento grande nas últimas décadas e com certeza há um fator ambiental envolvido.

Os fatores ambientais provavelmente são dietéticos e relacionados ao meio em que se vive, impossível, e hoje nenhum trabalho conseguiu mostrar o que causou esse aumento, mas acredita-se que há o fator dietético.

Acredita-se que as dietas acabam de alguma forma influindo no aumento da doença. De que forma? Provavelmente, mexendo com o metabolismo do organismo e com as bactérias intestinais, ou algum outro fator de equilíbrio do corpo. Porém, nós não podemos afirmar o que exatamente está provocando.

O que se sabe é que dietas extremamente gordurosas e não adequadas, além de não fazerem bem, podem influir na doença inflamatória intestinal. Talvez esteja influindo ao longo das últimas décadas.

 

Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa são as doenças inflamatórias intestinais (DII) mais comuns? Quais os riscos e os sintomas dessas doenças?

Essas são as principais doenças inflamatórias, são raríssimas outras doenças.

 Os principais sintomas são: diarreias em quantidade variáveis e frequentemente com presença de muco e de sangue.

O grau e a quantidade dessas evacuações e dessas diarreias são muito variáveis.

Na retocolite outros fatores podem aparecer:

  • Emagrecimento;
  • Anemia;
  • Queda do estado geral.

A doença de Crohn tem um caráter um pouco mais agressivo. Em alguns casos, o paciente pode ter outras complicações até muito mais severas:

  • Obstruções;
  • Fístulas;
  • Secreção na região do períneo com pus;
  • Outros quadros dolorosos na região.

 

Como tratar a doença de Crohn?

A forma de tratamento dela vai depender muito do grau de comprometimento do paciente e sintomas clínicos.

O tratamento inicial da doença de Crohn se baseia através de medicamentos anti-inflamatórios específicos, que vão controlar esse sistema inflamatório.

Dependendo do resultado, vamos passar para os corticoides e para medicamentos mais recentes, que são os biológicos que são os remédios que acabam eliminando esse fator inflamatório e que vai diminuir esse quadro.

O problema da doença de Crohn é que muitas vezes ela oferece complicações na sua evolução para o paciente. Essas complicações podem ser desde formas mais leves até perfurações intestinais. Em alguns casos, o tratamento passa a ser inclusive cirúrgico, para ressecar alguns segmentos acometidos, ou cirurgias até de emergência, quando necessárias.

Devemos lembrar então que a doença de Crohn tem uma amplitude muito grande, tanto nos sintomas quanto na forma de tratamento.

 

Como tratar a retocolite?

A retocolite ulcerativa tem um tratamento inicial clínico e vai passar por tratamentos específicos que vão levar a uma diminuição da inflamação intestinal.

Frequentemente se associam a corticoides que atuem no sistema imune e essa diminuição da resposta inflamatória vai fazer com que o intestino melhore os seus sintomas.

Em alguns casos, serão necessários medicamentos biológicos, que são mais recentes e que têm um custo mais elevado. São utilizados numa fase mais tardia ou, às vezes, quando os medicamentos iniciais não funcionaram adequadamente.

O problema da retocolite é que, em alguns casos, ela tem sintomas tão intensos e que levam a tantas manifestações, que é necessário o tratamento cirúrgico especialmente nas formas muito crônicas e que já têm muitos anos de evolução para a ressecção do intestino doente. Há a retirada desse intestino grosso e do reto, que são os órgãos acometidos pela retocolite ulcerativa.

 

Qual a diferença entre Crohn e retocolite?

O público em geral precisa saber que difere muito a localização no organismo:

  • A retocolite é praticamente restrita ao intestino grosso e o reto.
  • A doença de Crohn pode acometer o intestino grosso e o reto, mas também outras áreas do tubo digestivo, desde a boca, estômago e intestino delgado.

A doença de Crohn tem um quadro um pouco mais recidivante, ou seja, ela volta com mais frequência e até certo ponto ela se torna uma doença mais grave e pode levar a perfurações intestinais, coisa que a retocolite não leva.

 

Segundo os dados da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, o brasileiro não conhece as doenças inflamatórias intestinais e, na presença de alguns de seus sintomas, como dor abdominal e sangue nas fezes, a maioria prefere se automedicar ou “espera passar”. Quais os riscos desse tipo de atitude?

Nas fases iniciais, é comum que o paciente tenha diarreia e que ele vá atribuindo a outras coisas as infecções, ou simplesmente ele não vá atrás disso para fazer os exames com um especialista ou até mesmo com o seu médico generalista.

Alguns riscos no atraso no diagnóstico é pegar a doença numa fase mais avançada. Os riscos grandes dessas doenças são riscos crônicos relacionados à formação de câncer, porque elas têm uma relação com isso, mas só acontece com muitos anos de evolução.

Então, o principal risco no atraso do diagnóstico é que ele seja feito quando o paciente já tenha uma perda muito grande, uma anemia intensa e uma desnutrição. E o paciente tem fatores que fazem com que o tratamento seja pior, com certeza.

 

Então, dentre as complicações das DIIs, o câncer é uma delas?

Sim, especialmente na retocolite ulcerativa, mas são complicações que podem surgir na doença de longa data (muitos anos) e especialmente na doença mal controlada, ou não controlada.

Na doença inflamatória de longa data é obrigatória a realização de colonoscopia com frequências anuais, porque se houver indício de que está se desenvolvendo um câncer inicial (e ainda localizado), seja feita a abordagem, nesse caso, cirúrgica. A intervenção vai ser fundamentalmente para evitar que se desenvolva um câncer nesse paciente.

 

A intolerância ao glúten ou à lactose provoca inflamação intestinal?

A intolerância ao  glúten ou à lactose não inflama o intestino. O que acontece é que os produtos acabam provocando uma diarreia, mal-estar e distensão abdominal e que, às vezes, pode até ser confundido com um quadro inflamatório. Mas efetivamente eles não causam inflamação.

É muito comum o paciente que tem intolerância ao glúten e à lactose dizer que, se consumiu esses alimentos, tem a formação de gases. Isso é um meteorismo.

 

Por que isso acontece, se não é uma inflamação?

Não é uma inflamação. É um problema metabólico, falta uma enzima no corpo do paciente que vai degradar a lactose.

A lactose cai no intestino e o paciente não tem a enzima para digerir, aí ele não digere a lactose e, entre as bactérias do intestino, acaba formando gás. Não digere, então acaba provocando distensão. Não digere, é eliminada nas fezes e provoca diarreia.

No caso do glúten, já é um pouco diferente: é uma reação mais parecida com uma alergia no local. Mas não é pela inflamação, o teu organismo não está pronto para absorver aquilo.

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