Médico em Casa

Menopausa Engorda?

Entrevista com a médica  Endocrinologista
Dra. Dolores Pardini
CRM/SP:28.834

 

– Pesquisadora e Chefe do Ambulatório da Disciplina de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

– Diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

 

 

Silmara Biazoto 

 

Portal Médico em Casa – A menopausa engorda?

Dra. Dolores Pardini – Não diria que a menopausa engorda, mas que ela contribui para engordar. Em geral, a menopausa ocorre para 80% das mulheres por volta da quinta década de vida. A partir dos 40 anos, o nosso metabolismo basal cai muito, então, a menopausa contribui por causa da faixa etária.

É importante definir o metabolismo basal: nos alimentando, o nosso coração batendo, o nosso intestino e pulmões funcionando, tudo isso é o nosso metabolismo basal.

Um outro fator é a falta de estrogênio que ocorre na menopausa e faz com que a mulher ganhe massa gordurosa principalmente na área abdominal, faz a mulher perder massa magra e ganhar massa gorda, então, acho que ela contribui para o ganho de peso.

A partir dos 40 anos, o ser humano perde 2% do funcionamento do metabolismo basal por década. Isso significa que se o indivíduo continuar aos 40 anos com os mesmos hábitos alimentares e a mesma atividade física que tinha aos 30 anos, vai ganhar um quilo por ano.

Depois dos 40 e 50 anos, as pessoas diminuem a atividade física, têm mais acesso à comida. Na pós-menopausa, às vezes, as mulheres estão mais em casa, já se aposentaram e não têm mais a correria com os filhos pequenos, mais qualidade de vida, ou seja, a mudança de hábito contribui para que ela ganhe peso.

Alimentação, atividade física e a ausência de contraindicação à reposição hormonal, tudo isso ajuda essa mulher a segurar esse metabolismo.

 

Portal Médico em Casa – E quando acaba a menopausa?

Dra. Dolores Pardini – Por definição absolutamente acadêmica, depois de um ano que a mulher está sem menstruar ela está em menopausa, mas ninguém espera um ano para tratar. Depois de um ano sem menstruar, está em menopausa, passou um ano, se diz pós-menopausa.

 

Portal Médico em Casa – Então, pela sua experiência, a pós-menopausa dura quanto tempo?

Dra. Dolores Pardini – A rigor seria só um ano, academicamente dizendo, mas no dia a dia, eu diria que os sintomas vão atenuando depois do quinto ano da menopausa.
Algumas mulheres acham que os sintomas configuram a menopausa, mas não necessariamente.

Existem mulheres que retiram somente o útero por miomas, sangramentos abundantes e são jovens, estão com 30, 40 ou 45 anos. Então, metabolicamente falando, elas não estão em menopausa. É a chamada menopausa cirúrgica porque ela tirou o útero e não menstrua, ela perdeu o parâmetro sangramento, mas toda a parte hormonal está funcionando perfeitamente.

Para fazer o diagnóstico da menopausa, vamos precisar recorrer não somente aos sintomas, mas também às dosagens hormonais porque o parâmetro menstruação desapareceu no momento em que ela tirou o útero.

 

Portal Médico em Casa – Como ficam as mulheres que tiram as trompas e ovários?

Dra. Dolores Pardini – Nesse caso, elas entram em menopausa cirúrgica mesmo, aí independente da faixa etária, é preciso fazer a reposição imediatamente e, em geral, dependendo da idade, as doses são diferentes.

 

Portal Médico em Casa – Tratamentos para a menopausa com produtos naturais são eficazes?

Dra. Dolores Pardini – Existe um conceito entre o público leigo de que tudo que é natural é inócuo e não tem efeito deletério, isso é um grande engodo porque há plantas que têm muitas ações anti-inflamatórias e até antidiabetes. Esse natural não quer dizer que seja inócuo.

Quando falamos em terapia hormonal para a menopausa, existem os fitoestrogênios, que são plantas com propriedades muito parecidas com o estrogênio só que num nível mil vezes menor. A soja é uma delas, tem a cimicifuga racemosa, amora e chá de amora.

Os fitoestrogênios, além de não terem efeitos positivos, têm os negativos em mama e atrapalham o efeito residual que esta mulher ainda tenha, eles competem com o corpo da mulher e o receptor tem uma ação infinitamente menor.

Ele não melhora massa óssea, não melhora a proteção cardiovascular, não baixa a pressão, não baixa o colesterol, então, todos os efeitos que o estrogênio tem.

A mensagem importante é que quem tem contraindicação ao estrogênio, porque existem aquelas mulheres que não podem fazer uso dele, também o tem aos fitoestrogênios. Esse tratamento “natural” tem que ser muito bem avaliado.

 

Portal Médico em Casa – Estas mulheres que não podem realizar o tratamento com o estrogênio, tratam de que forma?

Dra. Dolores Pardini – Depende dos sintomas. O estrogênio tem inúmeras ações como diminuir a perda óssea, melhorar o fogacho, memória, insônia, depressão, odores articulares, olho seco, proteger a vagina de ficar seca, proteger a mulher de ter infecções urinárias de repetição, o estrogênio faz tudo isso. Se a paciente não pode usar, vai ter que usar uma coisa para cada uma dessas ações.

Por exemplo, para o osso nós temos medicações bem específicas quando a mulher tem uma quadro de perda óssea. Nas queixas vaginais de dor para ter relação, ela sente a vagina seca por falta de lubrificação, nós temos cremes e hidratantes que mesmo com a ação hormonal são absorvidos e isso ajuda muito.

Se a paciente tiver um quadro depressivo, vamos entrar com um antidepressivo que auxilie no sono, mas terá que usar cada um.

O mais difícil é o fogacho (calores) porque demanda uma classe de medicações que nós ainda não achamos uma que seja 100%. Em geral, são as medicações usadas como antidepressivos. Eles inibem a captação de serotonina a nível central e podem melhorar os calores da mulher.

 

Portal Médico em Casa – Para o tratamento da menopausa há a necessidade de exames regulares?

Dra. Dolores Pardini – Sim, isso é fundamental. Algumas mulheres têm muito medo dos hormônios, acham que vão ter câncer, que vão ter isso ou aquilo, mas já está bem demonstrado que se a terapia for bem indicada para a pessoa certa e que ela já se submeteu há alguns exames, se ela for acompanhada por um profissional, monitorada, ela é absolutamente segura.

O que não pode e eu já presenciei, é estar numa manicure, cabeleireiro ou numa loja do shopping e uma pessoa recomendar uma medicação para a outra que está com calor e dizer: “Estou tomando esta medicação, isso aqui é ótimo” . Isso é absolutamente errado, porque o remédio tem um limite muito tênue entre ser curativo e uma droga que mata ou cura.

Não pegue receitas de outras pessoas. Hoje existem ambulatórios públicos e profissionais especializados em reposição hormonal. A paciente tem que ser absolutamente individualizada, baseada na história e exames de cada um e ai sim estará com um diagnóstico seguro.

 

Portal Médico em Casa – O que são os hormônios bioidênticos e como eles agem?

Dra. Dolores Pardini – Os hormônios bioidênticos por definição são exatamente iguais aos que nós produzimos. Eles surgiram no mercado como se fossem uma proposta nova, mas não existe essa proposta nova. Os hormônios bioidênticos são iguaizinhos aos que nós fabricamos no organismo. Por exemplo, uma pessoa diabética que usa a insulina é bioidêntica porque a insulina é humana.

No passado era de hormônio de boi ou porco, agora é humano, então é bioidêntico. Quem tem hipotiroidismo, que é uma patologia super comum, usa o hormônio tiroidiano, idêntico ao que nós fabricamos, ou seja, são bioidêntico.

Os hormônios que nós prescrevemos e que são vendidos na farmácia são muito bem estudados antes de virem a público e são bioidênticos porque são a base de estradiol, o hormônio que nosso ovário fabrica.

Faço parte de vários trabalhos de pesquisa de laboratórios e vejo todo o rigor e seriedade que uma medicação precisa passar para ser aprovada e ir para a farmácia e não abro mão disso.

Não compre uma droga manipulada, que eu não sei onde é comprado o sal, como é manipulado.

Se eu prescrevo alguma coisa dessa espécie e se a paciente tiver alguma complicação, como que eu vou tratar, nem tenho segurança sobre o que ela está ingerindo.

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