Médico em Casa

Como o cérebro funciona?

Entrevista com o especialista em Neurologia da Cognição

Dr Fabiano Moulin
CRM/SP: 135.971

Como o cérebro funciona?

O papel do cérebro é possibilitar a organização do corpo e a interação com o ambiente. Portanto ele capta as informações relevantes do ambiente e corpo.
 
Como é que o cérebro interage com o meio externo? Através dos sentidos. Então, na prática o que são os sentidos? São maneiras do cérebro captar energias diferentes e transformar num código que ele consiga juntar para construir o que chamamos de realidade. Vamos simplificar isso: visão, onda eletromagnética, pegamos uma frequência pequenininha de todas as ondas eletromagnéticas que têm no mundo, que chamamos de faixa visual e que corresponde a bilhões de avos de todas as ondas eletromagnéticas possíveis. Dessas ondas que chegam na retina, nos olhos, que transformados em um código pelo nervo óptico, o cérebro interpreta.
 
Pegue uma outra energia, a pressão, e daí tem um outro sentido que se chama tato, que transforma essa pressão num código neural que chega no cérebro e, da mesma forma, com todos os sentidos e a partir disso entende, agrega ou rejeita.
 

 

O quanto usamos de tudo que captamos?

 
Muito pouco. Vou dar um exemplo de bits de computador: só de estímulo visual, saem por segundo 7 milhões de bits e a consciência tem condições para processar 70 bits e estou falando somente de visão. 
Se formos falar de ouvido, do tato, da percepção do corpo humano, o que se está planejando, pensando e lembrando, isso passa de 10 milhões de bits por segundo.
 
Esses 70 bits são tudo que seu cérebro disponibiliza para lidar com a informação que recebe. Ainda bem que o cérebro deixa o trabalho difícil para o inconsciente e o que vira consciente é aquilo que é diferente do planejado ou que é mais importante do ponto de vista emocional e racional.
 
 “Eu estou te vendo agora, o meu cérebro não está te atualizando a cada segundo, ele só atualiza a mudança”. O youtube aprendeu com o cérebro e muito das revoluções da inteligência artificial (TI) vem do estudo cerebral.
 
Isso já parece contrário do que percebemos no dia a dia, porque temos claro que o que  percebemos é realidade, porém uma realidade absurdamente pequena, que seu cérebro te legitima a ponto de ter certeza de que é a única verdade. Daí o perigo de um homem que vai ter uma única certeza, ele vai defender essa ideia como ninguém. 
 
 

Se o ser humano tem consciência de que enxerga uma pequena fatia, ai ele pode evoluir?

 
Na verdade, temos que ter muita tranquilidade em relação às nossas certezas porque provavelmente elas não estão certas. O legal do estudo do cérebro e da ciência é que eles nos ensinam uma humildade do bem. Não uma humildade passiva que implica em não querer entender, mas só para o indivíduo saber, que talvez não seja o dono da razão como imagina.
 
 

 “Ao questionar como o nosso cérebro funciona, estamos discutindo como construímos a nossa realidade”, essa é uma citação sua em um artigo publicado. Então, é possível reeducar nosso cérebro?

 
Se captamos um pouquinho da realidade não é passivamente, o ser humano co-constrói essa percepção, mais do que só absorve. 
 
Se o mundo fosse o mundo todos nós perceberíamos igual porque teoricamente o único papel do cérebro é interpretar a realidade como ela é, isso não existe, o cérebro não interpreta a realidade como é, ele interpreta como acha que deve ser.
 
 Desde o nascimento, ele vai aprendendo o que esperar da realidade, desde a barriga da mãe, ele vai assimilando o que esperar de cada momento.
 
O cérebro co-constrói a realidade de tal maneira, que eu posso desenhar um cubo aqui na mesa e você vai ver em 03 dimensões. Na prática, eu satisfiz o que seu cérebro chama de profundidade, mas é uma construção do cérebro.
O que o cérebro faz é  antecipar o que esperar da realidade e o olho confirma  o que está acontecendo, o que for diferente, o cérebro passa para a consciência para aprendermos. Quando não temos informação do olho, para dizer se é verdade ou não, o cérebro cria de forma espontânea.
 
 

Com essa sua explicação, você quer dizer que alucinamos o tempo todo? 

 
O tempo todo, quando concordamos com a nossa alucinação chamamos de realidade, quando não concordamos, chamamos de loucura ou doença.
O cérebro nos obriga, se não nos policiarmos,  a ter certezas mesmo sem ter informações o suficiente.
 
  

Como fazer para que ele não nos atrapalhe?

 
Do mesmo jeito que o cérebro tem seus atalhos na percepção chamados de heurísticas, os erros são chamamos de viés, daí as possibilidades de cairmos nas alucinações visuais, ou nessas brincadeiras da internet como ver diferente a cor do tênis ou vestido.
 
Outro exemplo, temos um viés de negatividade e quando eu sofro uma dor de tal intensidade e recebo um carinho na mesma intensidade, a dor vai ser maior do que o carinho. 
 
Quando vemos uma notícia triste e uma feliz, a triste vai receber mais a minha atenção do que a positiva. Isso é um viés, o meu cérebro é inclinado para o negativo, agora o fato de ser espontaneamente inclinado para o negativo, não quer dizer que tenha que ser negativo. Por isso é interessante entender que temos tantos atalhos para que o indivíduo não precise reagir imediatamente a cada hora que ele cai diretamente nesses atalhos e armadilhas.
“Se eu sou mais negativo que a maioria das pessoas, tentar equilibrar essa balança do pessimismo e otimismo, pode ser uma coisa super simples”. 
 
 

Se a pessoa percebe esse viés negativo, então ela passa a ter uma possibilidade de melhorar?

 
Sem dúvida. Nós vamos ainda ficar a vida inteira tendenciosos para o negativo, mas quanto mais eu dou atenção a mim mesmo, atenção ao meu processamento e me libertar desse viés espontâneo que a natureza nos dá, isso pode fazer a diferença. Agora naturalmente aquilo que é biologicamente inclinado vai sempre  tender.
 
 “Se eu deixo minha saúde mental aleatória, se eu deixo o mundo me chacoalhar de acordo que eu permita o mundo me chacoalhar, eu vou adoecer. 
 
 Se eu começo a entender que o mundo é o mundo, o que acontece nele eu tenho muito pouco controle, mas como eu reajo ao mundo está sob meu controle, que eu posso gradativamente assumir as rédeas e que eu tenho ferramentas para fazer a diferença, a qualidade de vida muda completamente”.
 
Não é ignorar a nossa natureza humana, mas é na verdade lutar para que ela possa ser a melhor experiência possível. Não é no sentido de que tudo possa ser positivo, mas que possamos sincronizar e fazer o melhor que eu posso em cada situação.” No enterro eu tenho que chorar, na festa eu tenho que dançar e no momento de ansiedade que eu fique ansioso, mas que eu possa ser flexível, que eu possa fazer o que devo para construir essa saúde”.
 
“Para a saúde mental, física e social é necessário a co-construção pessoal em como eu reajo e percebo o mundo para a saúde da minha família e no ambiente em que vivo”. 
 
Se permitimos viver reativo às várias inclinações biológicas que temos, parecemos nunca ser ator da própria vida, seremos sempre o coadjuvante ou alguém que está sentado no banco do passageiro.  
Quando começamos a entender o funcionamento do cérebro para construir a realidade e a tomada de decisão, temos o privilégio de não aceitar passivamente e lutar para que possamos ser melhor, isso nos torna, fantásticos, grandiosos, pró-ativos e conscientes na tentativa de sermos individualmente e socialmente melhores. 
 
 

  Saiu uma projeção da Organização das Nações Unidas (ONU) dizendo que 2050 teremos o triplo de casos de demência no mundo. Esse aumento acompanha a proporção de idosos que teremos ou será um aumento da doença?

  
Temos um aumento de incidência, que são os novos casos e de prevalência, que são os casos totais de demência no mundo, e por quê? Precisamos disseminar essa ideia de que do ponto de vista biológico nós não estamos preparados para viver bem até os 90 anos. O que nós precisamos é culturalmente criar ferramentas universais, porque tem que ser para todo mundo, não pode ser para um seleto grupo, para que possamos exercitar o melhor potencial humano para o envelhecimento do seu melhor possível.  
 
Isso não é tecnologia robótica para 2070, muito ao contrário, na verdade prestar atenção na saúde mental e no que se come porque o que é artificial demais provavelmente de alguma maneira vai descompensar o organismo.
 
Sobre a alimentação, uma outra coisa que é necessário prestar a atenção é a quantidade, comer muito o tempo todo faz mal, o nosso corpo não está acostumado a essa oferta contínua de alimentação. Passar momentos de fome, como o jejum intermitente, já foi mostrado em todos os bichos e em nós que faz diferença. 
 
Se eu te perguntar, de que maneira você quer morrer? Você vai dizer como a maioria das pessoas: Eu quero estar muito bem, e quando eu tiver 90 anos quero dormir e não acordar mais. O envelhecimento infelizmente não é isso, temos uns 30, 40 anos de qualidade de vida e começamos a desenvolver hipertensão, diabetes, colesterol alto, dislipidemia e aparece naturalmente um AVC, infarto e AlzheimerEntão, apesar de eu viver 90, passo metade da vida saudável, com ausência de doenças, e a outra parte colhendo os frutos de uma vida mal programada e mal organizada.  
 
 A cultura humana permitiu que vivamos mais e precisamos com conhecimento e sabedoria entender que dos 30 para os 90 anos tem que haver responsabilidade e não é do médico, do remédio, do transplante e da tecnologia milagrosa, é da rotina, do alimento e da atividade física. 
Agora vamos co-construir o nosso envelhecimento e a nossa saúde, isso precisa do papel de cada um. Isso não é tercerizavel, a palavra responsabilidade é muito boa, quer dizer só você pode fazer. 
 
  

 Dependência em mídias sociais, quais as consequências? 

 
Para idosos que usam redes sociais entre uma e duas horas por dia, eles melhoram de humor e reduzem a conversão para demência, por exemplo, mas vamos falar porque é possível se tornar dependente em mídia social. 
 
Em média o ser humano recebe da rádio, televisão, do podcast, Youtube e Instagram pela audição e visão, 100 mil palavras por dia, isso equivale a um livro de 300 páginas. O cérebro gosta de saber mais sobre o ambiente que o cerca e quanto mais tem informação, maior a capacidade de sobrevivência e adaptação. Portanto, no cérebro quando entra uma informação que julga importante, ele agrega recompensa, dopamina. Isso é viciante como sexo, comida e bebida,  passível de dependência. 
 
 Informação demais tem um custo, um combustível, que é a atenção. O foco é a grande chave para o cérebro e saúde mental.
 
É a atenção que vai impedir de viajar no tempo, no futuro e ficar ansioso ou no passado e ficar preso lá atrás. É o controle da atenção que vai permitir que crie 12 abas na internet e consuma a atenção, impedindo de construir melhores memórias, de ser mais criativo e tomar melhores decisões.
 
Hoje a internet, que está relacionada às mídias sociais, leva a ansiedade e depressão. O nível de rejeição social que a mentira do facebook e Instagram criam porque todo mundo é feliz, rico e fantástico, é inédito. A rejeição social no cérebro usa os circuitos da dor, a dor social é uma dor física. 
 
Precisamos, de novo, nos responsabilizar e assumir consciente de onde está a nossa atenção para não entrarmos num ciclo vicioso que se resume em:
 
  • Ficamos demais no celular, a atenção vai embora;
  • Com isso,  perdemos o controle sobre a ansiedade e a depressão, o que nos faz ter menos controle sobre a vida;
  • Com menos projetos pessoais, ficamos mais inclinado a ver o de terceiros e voltamos para as mídias sociais;
  • Novamente sobrecarrego tudo, perdemos a capacidade de tomar decisão e falta energia;
  • Piora a ansiedade e a depressão;
  • Sem a capacidade de fazemos projetos, voltamos para as mídias sociais.
 
Está fechado o ciclo. O nosso maior capital mental que é a atenção está destruída pela realidade atual.
  

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