Médico em Casa

TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade

Entrevista com a Neurologista
Dra Célia Roesler
CRM/SP: 37.949

Silmara Biazoto

O que é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?

É um transtorno neurobiológico cerebral genético caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade. Então, o Transtorno de Décift de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno que ocorre em exagero. Por exemplo, o paciente pode falar: “eu sou meio desatento, eu sou meio esquecido”, mas quando isso é exagerado e atrapalha a vida, caracterizado no caso como desatenção, se trata de um transtorno. Assim como o diabético, que tem um exagero de glicose no sangue, o hipertenso tem um exagero de pressão arterial, então, isso é um transtorno, é uma doença caracterizada por exagero.

De quase 80% do déficit de atenção e de todas as doenças neuropsiquiátricas, a que mais tem alteração genética é o TDAH e ela acontece por uma disfunção química cerebral. Trata-se de dois neurotransmissores importantíssimos, a dopamina e noradrenalina, responsáveis pelo foco e pela atenção, que estão desequilibrados no paciente.

 

O diagnóstico pode ser confundido com o de uma criança que gosta de brincar e que não quer parar para aprender?

Pode sim, por isso tem que ser um diagnóstico muito bem feito e quem chama a atenção dos pais geralmente é a escola, por isso, a idade de fazer o diagnóstico é a partir dos 7 anos, porque é quando a criança está na fase da alfabetização e muitas vezes tem dificuldade. Então, a escola começa a prestar atenção nesse aluno, que não está acompanhando o desenvolvimento dos outros coleguinhas.

Ele pode ter o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, pode ser o Transtorno de Hiperatividade ou o combinado. Geralmente o de Hiperatividade é mais comum nos meninos e o de Atenção nas meninas. 

O Hiperativo chama a atenção porque como ele não para quieto, também não presta a atenção no que está sendo transmitido na aula. 

 

Mas os professores têm condições de perceber a doença?

Eles podem até não saber exatamente do que se trata, mas estão prestando mais atenção nos alunos e isso está fazendo com que conversem com os pais para tentar procurar ajuda, pois às vezes a criança não está aprendendo porque tem um problema de vista, ou não está entendendo direito e está com problema de processamento auditivo central.

O que é isso? Existem crianças que têm dificuldades de aprender porque não estão interpretando corretamente o que estão ouvindo, então, elas erram tudo. Nesse caso, se faz um exame, que é a avaliação do processamento auditivo central, feita em laboratórios com fonoaudióloga, realizando o tratamento e obtendo sinais de melhora. Então, dependendo do caso, com duas ou três consultas, já se tem o diagnóstico.

Então, tem que afastar outras coisas, por isso não se pode superdiagnosticar, não se pode subdiagnosticar, tem que ser uma coisa muito bem feita.

 

Quanto tempo leva para fechar esse diagnóstico?

Numa criança é um pouquinho mais complicado porque pedimos uma avaliação neuropsicológica, inclusive para aplicar outros testes.

Para o adulto e adolescente um questionário mundial com 18 perguntas que são feitas tanto na primeira fase de desatenção e na segunda fase de hiperatividade que, se na maioria das questões, as respostas forem muito frequentes, já se pode fechar um diagnóstico.

O auxílio de uma avaliação neuropsicológica é afastar outras coisas que podem estar contribuindo.

O paciente que tem déficit de atenção, tem outras comorbidades juntas. E o que é uma comorbidade? É uma outra doença associada àquela principal.

Ele já tem uma depressão e  temos que tratar o quadro depressivo, às vezes são tremendamente ansiosos e impulsivos, com isso tomam decisões erradas, das quais se arrependem depois.

  • Eles não conseguem ler um livro até o final, têm dificuldade de manter a leitura;
  • Dificuldade de manter uma conversa, eles interrompem a pessoa que está conversando;
  • Não têm paciência para ficar numa fila, tendem a querer furar a fila, não querem esperar.

 

Para o adulto, quais as consequências no convívio social e profissional?

Primeiro é importante dizer que ele chegou onde chegou às custas de muito sacrifício.

O paciente com TDAH por muitas vezes não consegue parar em um emprego por ser mandado embora e isso ocorre porque não consegue entregar os relatórios, cumprir as etapas, além de chegar atrasado.

Nos relacionamentos conjugais e amorosos, ele combina com a esposa: “Nós vamos ao teatro quinta-feira, às 20h”, e daí ele está trabalhando e esquece completamente e a mulher liga: “Amor, e o teatro?”, e ele diz: “Esqueci”.

Aquele que está estudando, começa vários cursos, começa uma faculdade e troca.

Enquanto ele não estiver sendo tratado para poder se organizar e focar, a vida dele fica muito difícil.

 

E como é o tratamento?

O tratamento é medicamentoso, com acompanhamento, muitas vezes com psicoterapia e psicopedagogia para ajudar porque tanto a criança e o adulto com TDAH são muito desorganizados, não conseguem se organizar para estudar, para fazer as lições, começam tudo de uma vez e não conseguem terminar.

A resposta é muito rápida com o tratamento medicamentoso, mas tem que fazer um acompanhamento psicoterápico junto, o que ajuda muito mais.

 

Esse tratamento medicamentoso traz efeitos colaterais?

Por enquanto no Brasil nós temos duas substâncias específicas para tratar transtorno de déficit de atenção, que são estimulantes cerebrais, mas existem muitos outros em outros países.

Os usados no Brasil são a metilfenidato e a lisdexanfetamina. A metilfenidato tem dois nomes comerciais e a lisdexanfetamina um. Eles agem equilibrando a noradrenalina e a dopamina para que a pessoa que tem este transtorno possa focar, cumprir suas atividades, poder prestar atenção nas coisas.

Todo medicamento tem efeitos colaterais, eles tem ação imediata e ação prolongada. Os de ação prolongada pode durar 08, 12, 13 horas. Tem que respeitar a prescrição, ele pode tirar o sono porque é um estimulante cerebral como uma cafeína ou uma anfetamina mesmo. Pode diminuir muito o apetite como uma anfetamina, piorar um pouquinho a ansiedade, alguns podem provocar dor de cabeça, mas é tudo numa fase de adaptação mesmo.

 

Para a criança e para o adulto, o tratamento é para o resto da vida?

Uma criança que é bem conduzida, com terapia e com a medicação, muitas vezes, pode já numa fase adulta conseguir ficar sem o medicamento, mas quando já estiver tudo certinho. Geralmente é para o resto da vida.

O paciente adulto que começa a se tratar e mesmo o adolescente, não querem mais parar o tratamento.

 

Qual a porcentagem da população tem TDAH?

5% da população mundial tem déficit de atenção, mais de 300 milhões de pessoas e, boa parte, sem diagnóstico e tratamento.

Agora imagina a situação destes pacientes, porque no início o paciente que tem TDAH é considerado um burro, um preguiçoso, um vagabundo e na verdade não é. Ele tem essa deficiência biológica, neurobiológica de substâncias químicas que ele herdou da família. Ele não consegue focar e imagina como fica a autoestima dele.

O paciente com TDAH tem um problema que pode ser tratado, e isso pode melhorar  muito a vida dele.

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