Médico em Casa

Doença celíaca, alergia e intolerância ao Glúten

Entrevista com a alergista
Dra Maria Angela Amato Vigorito
CRM/SP: 50342

Silmara Biazoto

Em quais alimentos o glúten está presente e por que houve um aumento significativo de pessoas desenvolvendo doenças relacionadas a ele?

Glúten em latim significa cola. É uma proteína que está presente no trigo, na cevada, no centeio, na aveia e no malte, que é um derivado da cevada. Quando essas proteínas entram em contato com a força da água e a força mecânica, elas se transformam em uma cola. O glúten acaba sendo um vilão porque altera as vilosidades do intestino provocando doenças.

 

Por que as intolerâncias  aumentaram?

Porque hoje em dia todo mundo prioriza o fast food, a comida rápida e processada. Quase todo mundo come pão no café da manhã, massa no almoço ou no jantar, inclusive as crianças comem um biscoito ao invés de comer uma fruta. Eu costumo dizer que é melhor descascar do que desembrulhar, a comida saudável é a cura de várias doenças.

O primeiro fator é a questão de compra e consumo de alimentos processados e industrializados. O segundo fator está nas mudanças genéticas no trigo processado. Isso alterou a quantidade de glúten dentro dos cereais citados acima.

Inclusive, alguns trabalhos relatam que isso ocorreu nos últimos 50 anos, outros nos últimos 20 anos. O fato é que geneticamente eles estão alterados e estão com uma maior quantidade da proteína e cada vez mais pessoas têm problema quando o consomem.

 

Qual a diferença entre doença celíaca, alergia e intolerância ao glúten?

DOENÇA CELÍACA

A doença celíaca atinge 1% da população mundial. São pessoas que geneticamente são suscetíveis ao antígeno de incompatibilidade do HLA DQ8 positivo, uma condição genética de quem é sensível ao glúten, ou seja, elas não metabolizam o glúten, fator que causa uma reação inflamatória persistente na mucosa.

Então, o diagnóstico passa por achar anticorpos contra essas proteínas: transglutaminase A, gliadina e endomísio. Um exame importantíssimo é a endoscopia, em que se observa se as viscosidades estão alteradas. Para este grupo de pacientes, o tratamento é evitar totalmente a proteína.

ALERGIA 

A alergia a uma dessas proteínas que está no trigo, na cevada, na aveia, no centeio ou no malte, é uma reação do tipo 1 de anafiláxia, mediada pela IgE, que é um anticorpo dito reagínico. As pessoas nascem com a probabilidade de ter a doença e se entrarem em contato com aquilo que faz mal, vão desenvolver com o tempo sintomas ditos alérgicos. Esses sintomas alérgicos são mais amplos do que a doença celíaca, que é restrita ao intestino.

Na alergia tem as doenças de pele: urticária, dermatite atópica, dermatite de contato, asma, rinite, sinusite e otite. Pode haver doenças inflamatórias chamadas Síndrome do cólon irritável e disbiose. O paciente que tem a alergia vai apresentar sempre algum sintoma, então, ele tem que se enxergar e ver que os sintomas da alergia e da intolerância são muito próximos, mas com mecanismos imunológicos diferentes, estão presentes, de algum jeito, na sua vida.

Na verdade, para se fazer o diagnóstico da alergia, é fundamental a história do paciente, uma relação causal, os testes cutâneos positivos e acompanhados dos testes laboratoriais, no caso da IgE: o RAST é o mais comum no nosso meio.

INTOLERÂNCIA 

A terceira condição é a intolerância. Até pouco tempo atrás as pessoas não sabiam diferenciar a alergia ou intolerância ao glúten, que é uma doença celíaca não alérgica, ou seja, ficou uma condição entre elas, vamos dizer assim.

Hoje os trabalhos mostram que é uma reação do tipo 3 de hipersensibilidade por acúmulo de imunocomplexo mediada por outra imunoglobulina G – IgG e também é uma condição genética. Nada é por acaso, a pessoa vai ter aquilo que o organismo e que seus ancestrais tiveram, isso ajuda muito a olharmos para a família e ver o que está presente nesse contexto, pois há uma grande chance de desenvolvermos na nossa vida.

Então, a condição da intolerância passa pelo trigo, o anticorpo antibeadina positivo, os testes cutâneos não necessariamente dão positivo. O que temos hoje é um exame que vai para a Alemanha e Estados Unidos, a reação tardia do tipo 3 que se chama Imupró e dá uma reação a 300 alimentos, ao glúten e a todas as proteínas que advêm do glúten.

 

Se não diagnosticadas e tratadas, quais as consequências para as pessoas que têm essas doenças?

Na verdade, quando falamos dessas três condições, que são as mesmas para outras alergias, falamos de um envenenamento contínuo e progressivo, um processo de adoecimento. Então, as pessoas que não fazem um diagnóstico precoce e não param de ter as inflamações, porque a alergia nada mais é que uma inflamação crônica que libera mediadores inflamatórios presentes em qualquer tipo inflamador, sendo o antígeno um fator alimentar ou inalante, vão ter até problemas de respostas imunes que vão levar ao câncer. Inclusive, estamos fazendo trabalhos conclusivos que não existiam na literatura, sobre a importância de se diagnosticar a presença de pólipos em doenças intestinais.

O pólipo acaba acontecendo por uma reação da atividade da mucosa. Principalmente no intestino, sabemos que ele pode evoluir com o tempo, então, se o paciente melhora a impermeabilidade e tira os antígenos que levam a essa alteração, sabemos que esse paciente não vai evoluir para um câncer de intestino.

 

Os tratamentos para as três formas são para o resto da vida?

Para a doença celíaca sim, pois se trata de uma retirada vitalícia, se diz que é uma doença relacionada ao gene. Como eu disse, estamos estudando para saber se alguma indução de tolerância possa diminuir a reação a esses pacientes.

Em relação à alergia, estamos fazendo um trabalho de imunoterapia ativada, imunoterapia essa que se dá para a indução de tolerância, que é como começaram as imunizações no passado. Dá-se um pouquinho daquilo que faz mal para mudar a resposta imunológica.

Eu tenho estudado isso com protocolos acadêmicos e tenho visto resultados. Ainda não está aceito pela Sociedade Brasileira de Imunologia porque temos um número pequeno de casos, mas eu creio que em pouco tempo será um grande avanço terapêutico para os pacientes que hoje em dia não tem nada para ser oferecido. Remédio não trata alergia, trata o sintoma e no momento em que se retira o remédio, volta tudo.

Eu vejo um paciente que vem para mim e diz: “Eu tomei 03 meses do antialérgico que o médico me receitou e voltou tudo”. Na verdade, nunca parou. Os remédios apenas passam a sensação de que a doença parou. Então, ele deve ser usado numa crise mais forte para melhorar o estado geral do paciente para uma reação maior, mas não se pode ter a ideia de que remédios de alergia sejam curativos, não existe isso. A cura é tirar o fator etiológico, que em inglês se chama trigger, desencadeante da reação.

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