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Guillain-Barré, Microcefalia e Zika

 

Entrevista com a Médica Infectologista
Dra Vivian Silva
CRM: 116.137

 

Temos informações de pesquisas do mundo todo sobre o vírus Zika estar relacionado à microcefalia em recém-nascidos.

Estas informações são importantes para se fechar o diagnóstico?

Estamos convencidos que existe mesmo essa associação do vírus e a microcefalia. Como conduzir os casos das crianças que nasceram com a microcefalia é um problema distinto e um diálogo importante que precisa haver. Não sabemos a extensão do dano neurológico dessas crianças, não temos ideia de qual o grau do déficit de desenvolvimento, que deve ser bastante heterogêneo.

Vamos ter uma geração, um número grande de crianças com esse problema e a estrutura para que elas sejam acompanhadas, e tenham o máximo possível de estímulo para desenvolver a potencialidade dentro das limitações delas, é uma discussão muito importante. É um acompanhamento multiprofissional: precisa de um neuropediatra e uma equipe junto com esse neurologista composta por enfermeiro, fonoaudiólogo, fisioterapeuta ocupacional e psicólogos. Uma equipe composta por essa diversidade de profissionais para dar um suporte para essas crianças e para as mães.

 

Essas crianças conseguirão ter autonomia?

Provavelmente o desenvolvimento delas vai ser bastante heterogêneo, não sabemos ainda. Vamos ter crianças com desenvolvimento normal no final das contas e crianças com déficit bem importante. Aparentemente o déficit não compromete as regiões primitivas do sistema nervoso que cuidam da respiração e dos controles vitais, do ponto de vista cognitivo não sabemos, mas a criança é capaz de engolir, comer e fazer as funções vitais dela.

 

É possível se falar em um panorama nacional sobre a doença?

Até janeiro tínhamos 22 estados da Federação com números confirmados do vírus Zika. Em relação ao número é muito difícil estimar porque não temos um teste bastante fiel que esteja disponível de forma ampla nos serviços de saúde. Os testes que temos hoje só conseguem pegar os primeiros dias da doença e são bem caros, então, não é simples de estabelecer e é uma doença cujos sintomas se confundem com o Chikungunya também.

De uma maneira geral, o Zika era tido há pouquíssimo tempo atrás como uma doença muito leve, mas hoje temos duas preocupações principais: as gestantes com possibilidades de causar más-formações congênitas especiais no sistema nervoso com a microcefalia. A outra preocupação importante é que em adultos de qualquer faixa etária, o vírus pode estar associado a alterações neurológicas, por exemplo, a síndrome de Guillain-Barré, que é uma doença associada à fraqueza muscular e alteração de sensibilidade, que tipicamente começa nos membros inferiores e sobe para o restante do corpo.

Tivemos relatos de inflamação associada à presença do vírus tanto no cérebro quanto na medula espinhal. Existe algum indício de que o vírus possa causar lesão para o neurônio e para a célula do sistema nervoso central, inclusive em adultos. Essas manifestações pelos relatos que temos agora são transitórias. Desde que o indivíduo receba suporte médico apropriado, ele vai se recuperar sem sequela, mas são manifestações que preocupam porque geram uma sobrecarga para o sistema de saúde. Por exemplo, temos uma quantidade de leitos de UTI que é fixa para o estado e, se de uma hora para outra temos um aumento dos casos de Guillain-Barré, que precisam de Unidade de Terapia Intensiva, teremos uma sobrecarga por conta dessa doença, então, precisamos ter planejamento.

É muito comum no caso da síndrome de Guillian-Barré, nos estágios iniciais, a doença não ser diagnosticada. O paciente vai a um posto que não tenha uma situação de alerta para a doença ser detectada, dizendo que está com uma fraqueza, se um teste apropriado de exame neurológico não for feito, ele vai ter o diagnóstico quando estiver bem mais grave.

 

O principal sintoma da síndrome de Guillain-Barré é a fraqueza?

No exame clínico o médico pode detectar outras coisas, como a falta de reflexos nos membros acometidos que costuma ser um sinal bastante sugestivo. Depois disso, a fraqueza começa a acometer outros músculos, o paciente começa a ficar cansado e com dificuldade até para respirar. Não consegue sorrir de forma normal, fica com as rugas diminuídas, as pálpebras não conseguem se abrir tanto e conseguimos perceber a fraqueza afetando mais músculos. Pode ter queixas de formigamentos, choques e dores, mas o tem que prestar mais atenção é a fraqueza e, para o médico, o exame neurológico é fundamental.

 

Estamos preparados para fazer estes testes?

Não tenho visto um treinamento formal, especialmente nos serviços públicos em relação à detecção a esses casos, mas tenho visto muito interesse entre os profissionais de saúde. É claro que um treinamento formal ajuda, por exemplo, ter um neurologista treinado para fazer os testes dos reflexos, seria uma coisa interessante, mas isso não resolve a falta de infraestrutura, alguns hospitais públicos têm sempre um leito reservado para atender a leptospirose, então, não sei se não deveria ter um planejamento para ter sempre um leito reservado para os casos de Guillian-Barré e ter uma orientação de quais as referências dos hospitais preparados para o atendimento. Por exemplo, temos um posto e um médico que refez um treinamento para fazer o diagnóstico e com a estrutura para atender um caso suspeito, isso precisa existir, precisa ser claro.

 

Como o vírus Zika é detectado?

Sete a dez dias é o tempo que detectamos o Zika no sangue, mas há outras secreções que podem ficar mais tempo. Temos casos da transmissão por relação sexual do homem para a mulher e que o sêmen é o veículo, e como a eliminação do sêmen dura mais tempo, pela sugestão de relatos que temos, demora mais de um mês.

O que vemos é que em outros países essa onda de epidemia foi curta, durou um ano, no máximo dois anos, não foi uma onda que demorou tanto tempo assim para passar. Essa é a fase de maior risco.

 

O Ministério da Saúde tem alertado as mulheres de que esse não é o momento de engravidar?

Acho fundamental que o planejamento familiar fosse amplamente acessível e não a discussão do aborto. Acho que começamos a falar no inverso, de trás para frente, tem que pensar nas potenciais gestantes antes delas engravidarem.

Uma coisa importante que não sabíamos até pouquíssimo tempo atrás, e que saiu num estudo do Rio de Janeiro, é que o risco de alterações congênitas, de más-formações, não se restringiu ao primeiro trimestre de gestação. Ele aconteceu em gestantes que pegaram Zika no segundo e no terceiro trimestre também. Existia um conceito de que se está com seis meses, pode relaxar na prevenção, não é verdade, tem que prevenir até o final.

É necessário que elas tenham em mente que precisam se proteger: o uso de roupas de manga comprida e calça para proteger a pele é uma das recomendações importantes, principalmente em ambientes externos. O uso de repelentes é recomendado e lembrar que deve seguir a orientação do fabricante em relação ao período da gestação em que o repelente é permitido e dentro de quantas horas ele deve ser reaplicado. Medidas como tela na janela, fecha-la e usar o ar condicionado são importantes. Repelentes de usar na tomada ou de pôr na prateleira que independem da gestante se lembrar do tempo inteiro, também é uma alternativa.

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