Médico em Casa

Menopausa e falta de libido

Entrevista com a Chefe do Ambulatório de Menopausa e Endocrinologia da UNIFESP
Dra. Dolores Pardini
CRM/SP:88.834

Silmara Biazoto

A menopausa ocorre com a mulher a partir de que idade? Como saber se está chegando?

A grande maioria das mulheres entra na menopausa por volta dos 50 anos, eu diria que 80% delas. Quando se tem uma menopausa abaixo dos 40, ela é chamada de menopausa precoce, quando é acima dos 55, menopausa tardia. Nesse período, a menopausa é absolutamente fisiológica.

 

Como a mulher descobre que está na menopausa?

Pelos sintomas e pela avaliação laboratorial. A menopausa é definida como a última menstruação, então, ela é uma data, você precisa estar um ano sem menstruar para dizer, eu estou na menopausa.

É um diagnóstico retrospectivo, que não necessariamente a paciente precisa esperar um ano para tratar. Quando começam os sintomas, muitas vezes, a mulher está só com uma irregularidade menstrual ou às vezes nem isso, pode ser uma dificuldade para conciliar o sono, mais irritada, com o humor flutuando, que vai da euforia a tristeza, é o começo do climatério que pode durar alguns anos.

 

A reposição hormonal traz que benefícios e como ela pode ser feita?

Traz muitos benefícios, a menopausa é caracterizada pela falência ovariana, os ovários param de fabricar um hormônio que é super importante – o estrogênio, fundamental para saúde dos ossos. Então, existe uma porcentagem de mulheres que quando adentram a menopausa começam a perder osso, um quadro que pode evoluir para uma osteoporose.

O grande problema da falta do estrogênio é o aumento do risco cardiovascular. É sabido de todo mundo que até a menopausa, os homens têm muito mais infarto do miocárdio do que a mulher, só que quando ela entra na menopausa, esse risco vai se equiparando porque ela perde o protetor do coração dela, o estrogênio.

As mulheres nos procuram para tratar a menopausa pelos sintomas, que são os fogachos ou calores, pela insônia e pela irritabilidade, mas no ponto de vista médico, a nossa maior preocupação é a doença cardiovascular, que aumenta muito com a saída do estrogênio.

Elas podem apresentar também dor na relação sexual porque a vagina fica muito menos lubrificada sem o estrogênio e com isso ela sente dor na penetração, isso faz com que ela se afaste do parceiro e tenha problemas de relacionamentos sérios.

Outra queixa é a infecção urinária de repetição e também a urina solta, ela começa a perder urina na academia durante o exercício e isso ocorre por quê? Toda a estrutura do exercício no assoalho pélvico, inclusive os ligamentos de bexiga e útero, são todos estrogênio dependentes, ocorre uma frouxidão de assoalho e esses sintomas aparecem.

 

Doutora e a libido?

Esse é o terreno mais difícil da abordagem. Vamos começar por partes. A libido deve ser diferenciada da sexualidade. Quando faço um interrogatório para eu mensurar a vida sexual da mulher, que para mim é muito importante para a abordagem pós-menopausa, existem questionários nacionais e internacionais validados.

Isso é muito importante e eu oriento até os meus alunos a fazerem esse interrogatório da forma correta porque se você perguntar para uma mulher como vai a sua vida sexual? Dê uma nota de zero a dez? Ela pode dizer que está zero porque não tem parceiro e a conta não pode ser feita dessa forma. A sexualidade dela está boa, porém, a vida sexual está ruim, temos que separar.

Quando falamos em libido é o apetite sexual, é a aptidão que ela tem para o sexo, vontade que ela tem para fazer sexo. Às vezes tem mulheres que têm aptidão, mas tem dificuldade para o orgasmo ou na penetração. É importante separar isso: a libido é a falta da vontade para o sexo. Muitas coisas influenciam essa vontade para o sexo, as mais frequentes são as medicações, que nesta faixa etária são os antidepressivos.

Os antidepressivos, com raríssimas exceções, comprometem muito a libido porque aumentam a serotonina, um neurotransmissor que provoca euforia, e a serotonina é ruim para o sexo, então, a mulher fica numa encruzilhada, tudo tem que ser muito bem avaliado. Tem outras medicações para outras finalidades, alguns diuréticos que também interferem na libido.

Primeiro é saber a história e ver se ela está tomando alguma medicação. Na pós-menopausa, primeiro ela tem que ser estrogenizada e deixar essa vagina muito bem porque uma mulher que tem dor na penetração, só de pensar em fazer sexo, ela já se retrai, então, tem que haver condições para o sexo, ou seja, melhorar o sono dessa mulher e a irritação. Então, veja quantos fatores interferem na libido.

De uma maneira geral, a mulher tem que se cuidar na juventude e na puberdade em termos de saúde. Tem que ter hábitos saudáveis de alimentação, de atividade física, porque a obesidade por exemplo, vai comprometer muito a a autoestima dessa mulher e vai ter repercussão na esfera hormonal.

Uma informação que eu acho importante que seja divulgada é que a grande maioria das mulheres só relacionam a falta do apetite sexual a hormônio masculino, então, elas acham que se usarem a testosterona, vão ficar “zero bala”, e não é verdade.

A testosterona é importante? Sim, mas é um entre todos estes fatores que eu citei. Não adianta repor só a testosterona sem um exame prévio, sem uma avaliação porque se houver um aumento do colesterol, a testosterona vai piorar.

Se a paciente tem um histórico de aumento de tendência à acne, pré-diabetes ou hipertensão, eles também vão piorar. Então, está indicada para pacientes que não têm outra contraindicação. Não pode sair tomando medicação porque uma amiga prescreveu.

 

A reposição pode desencadear alguma doença?

O grande medo das pacientes e também um grande mito é o de que a reposição vai desencadear um câncer de mama. Nas mulheres que não têm útero, a reposição consiste somente no uso do estrogênio e nas mulheres que têm útero, eu sou obrigada a usar o estrogênio e progesterona para copiar o ciclo menstrual normal e proteger a camada interna do útero, que é a única função da progesterona.

Os estudos já são bem conclusivos e bem concordantes de que a vilã da história no câncer de mama é a progesterona e não o estrogênio.

Hoje, nós já estamos na sexta geração que usa a progesterona, e temos usado progestagênios naturais, que têm muito menos efeito deletério para uma série de setores e que esse medo não existe mais. Na verdade, a mulher acha que vai morrer de câncer de mama usando o estrogênio, mas se ela não usar o estrogênio, vai morrer do coração. Então, ela tem que ser orientada a esse respeito, isso faz parte da falta de informação, a mulher leiga não é obrigada a saber de tudo isso, é o profissional que a atende que tem de estar atualizado neste aspecto.

 

Como se escolhe o método para a reposição hormonal?

A arte da reposição hormonal consiste na individualização porque cada uma de nós é um universo com histórico diferente, um passado diferente e preferências diferentes.

Quando faço todo o histórico, peço os exames, a paciente não tem contraindicação e vou tratá-la, eu coloco da seguinte maneira: ela pode escolher entre via oral e não oral.

 

Qual a diferença?

A passagem hepática. Quando toma comprimido do estrogênio antes de ir para os órgãos alvos a que ele se destina, ele passa pelo fígado e essa passagem promove várias secreções de substâncias indesejáveis, pode aumentar a pressão, pode aumentar fatores inflamatórios e pode aumentar fatores de coagulação. Então, de uma maneira geral sempre prefiro a via não oral, que pode ser por meio de gel de estradiol que essa mulher vai usar todos os dias. Pode ser também através de adesivos que ela coloca duas vezes por semana.

Um dado para você colocar nesta reportagem é a “janela de oportunidade”, isso dentro da reposição hormonal é um marco.

A “janela de oportunidade” é o período ideal que a mulher  tem que começar a reposição hormonal em um período em que os benefícios superam os riscos. É o tempo de menopausa, o tempo da janela é muito variável e isso já foi muito discutido em congressos, porém, vamos dizer que o ideal seria ela começar até os seis anos, depois disso tem que passar por uma avaliação bem especial para saber se ela pode ou não repor.

Sempre aconselho que quando a mulher suspeitar da falência dos ovários, deve procurar por um profissional e ser bem orientada para iniciar o tratamento o quanto antes.

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